São Luís (MA) transforma reconhecimento nacional do afroturismo em construção de nova experiência turística
Reconhecida como “Melhor destino nacional de afroturismo” pelo Guia Negro, São Luís constrói seu Plano Municipal de Afroturismo em uma parceria entre o Sebrae Maranhão e a Secretaria Municipal de Turismo.
O que faz uma cidade ser reconhecida como o melhor destino nacional de afroturismo? A resposta está muito além dos seus atrativos turísticos. Está nas histórias preservadas pelos seus territórios, nos saberes transmitidos por gerações, nas manifestações culturais que permanecem vivas e nas pessoas que transformam memória em experiências, negócios e oportunidades.
Foi partindo dessa perspectiva que São Luís (MA) iniciou uma nova etapa na construção do seu Plano Municipal de Afroturismo. Durante quatro dias de encontros, realizados entre 24 e 27 de agosto, representantes do turismo, cultura, comunidades, empreendedores e lideranças participaram de uma escuta coletiva para definir caminhos que possam transformar a identidade afro-maranhense em uma estratégia permanente de desenvolvimento para a cidade.
Reconhecida em 2026 como “Melhor destino nacional de afroturismo” pelo Guia Negro, a capital maranhense agora busca transformar esse reconhecimento em ações estruturadas. A proposta é criar diretrizes para fortalecer roteiros, qualificar empreendedores, ampliar a promoção do destino e garantir que os benefícios econômicos do turismo cheguem aos territórios que preservam essa história.
A iniciativa é realizada pelo Sebrae Maranhão, por meio da Unidade Regional São Luís, em parceria com a Secretaria Municipal de Turismo de São Luís (SETUR), dentro do Programa Cidade Empreendedora, com coordenação técnica do Guia Negro.
“O Sebrae Maranhão tem como missão impulsionar o desenvolvimento territorial sustentável e transformar a diversidade e a herança cultural maranhense em oportunidade de negócios, emprego e renda. A participação na construção do Plano Municipal de Afroturismo traduz exatamente essa vocação: posicionar o empreendedorismo negro e ancestral como vetor de desenvolvimento econômico e inclusão social”, afirma Antônio Veras, gerente da Unidade Regional São Luís.
Um plano construído com quem faz o afroturismo acontecer
Os encontros tiveram como objetivo ouvir quem vive e constrói o turismo na prática. As oficinas passaram pelo Centro Histórico, Quilombo Urbano da Liberdade, Sebraelab e pela sede do Boi de Maracanã, aproximando diferentes olhares sobre os desafios e as potencialidades do segmento.
Para Saulo Santos, secretário municipal de turismo, o plano vem justamente para organizar a potência que é a ancestralidade da capital e transformá-la em desenvolvimento para o nosso turismo e para nossa cidade.
“A realização das oficinas de construção participativa é parte fundamental desse projeto. Nos reunimos com mestres da cultura popular, lideranças de terreiro, empreendedores negros, guias e a própria comunidade. Quem vive a cultura no dia a dia é quem está nos dizendo como o turismo deve acontecer nos seus territórios. São Luís está dando um passo histórico e inédito por meio do plano.”
O projeto foi dividido em três etapas: pesquisa e diagnóstico, desenvolvimento do plano de ação e apresentação, validação e finalização do documento. Na primeira fase, foram realizadas entrevistas, consultas e mapeamentos que reuniram 126 participações entre lideranças, empreendedores, profissionais do turismo e população.
O diagnóstico revelou um cenário de grande potencial: São Luís possui uma diversidade de manifestações culturais, territórios, patrimônios e negócios ligados à cultura negra. Ao mesmo tempo, apontou a necessidade de transformar essa riqueza em uma oferta turística mais estruturada.
“São Luís é uma cidade preta, então é um lugar em que as pessoas negras vão se sentir em casa quando chegarem aqui. Mas é uma cidade que precisa estar preparada para receber esse turista negro, entender suas demandas e criar esse sentimento de pertencimento”, afirma Guilherme Dias, do Guia Negro, consultor responsável pela construção do plano.
Segundo ele, fortalecer o afroturismo também significa ampliar a permanência dos visitantes e estimular uma relação mais próxima com o território.
“Isso vai fazer com que esse turista fique mais tempo, porque ele vai se identificar com essa cidade preta. Ele não vai querer apenas passar um dia e seguir viagem. Ele vai querer viver São Luís, experienciar a cidade”, completa.
Para empresários do setor turístico, participar da construção do plano é uma oportunidade de contribuir para um novo posicionamento da cidade.
Paulus Pinheiro, da agência MDM Turismo, destaca que o afroturismo representa uma tendência crescente e que São Luís possui um grande potencial ainda a ser explorado.
“É um assunto super importante, uma abordagem muito forte no turismo, e a gente não poderia deixar de participar. Temos um potencial imenso, que é um prato cheio para o turista que vem buscar atrativos diferentes aqui em São Luís”, afirma.
A empresária Erika Verde, da agência Dona Viagem SLZ, reforça que ouvir comunidades e profissionais do setor é essencial para construir experiências verdadeiramente conectadas ao território.
“Essa escuta coletiva com guias, comunidades e todos que fazem parte do turismo é muito importante para que São Luís se torne um destino de afroturismo. É preciso ouvir, respeitar as comunidades, as tradições, a gastronomia e a culinária”, destaca.
Segundo Antônio Veras, a atuação do Sebrae envolve aproximar diferentes atores e apoiar a estruturação dos negócios ligados ao segmento.
“Atuamos como ponte entre o poder público municipal, o trade turístico, lideranças comunitárias e mestres da cultura popular para garantir uma governança colaborativa. O afroturismo não é apenas preservação da memória, é economia criativa, dinamizando bairros e fortalecendo a autonomia financeira de quem empreende na cultura”, destaca.
A próxima fase do plano será dedicada à construção das estratégias e metas que irão orientar sua implementação. Entre as propostas em discussão estão o fortalecimento da governança do segmento, criação de roteiros permanentes, qualificação de empreendedores, estratégias de comunicação e mecanismos de apoio ao afroempreendedorismo.
A ideia é que o documento não seja apenas um diagnóstico, mas uma ferramenta de execução.
“O grande desafio é fazer com que esse plano seja usado, que ele se torne um documento vivo, que esteja em execução pelo Sebrae Maranhão, pela Secretaria Municipal de Turismo e pelas pessoas que participaram da construção”, conclui Guilherme Dias.
