BNDES aprova R$ 25 milhões para dois projetos de conservação e restauração de corais no Maranhão e em mais oito estados
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciou nesta sexta-feira (28), durante o 9º Congresso Brasileiro de Oceanografia (CBO’2026), em Vitória (ES), a aprovação de R$ 24,95 milhões para dois novos projetos do BNDES Corais, que vão ampliar ações de conservação, monitoramento e restauração de ambientes coralíneos da costa brasileira. As iniciativas serão executadas pela Fundação Espírito-Santense de Tecnologia (FEST), fundação de apoio ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), e pelo WWF Brasil e Fundação. Juntos, os projetos somam R$ 50,87 milhões em investimentos e terão ações em nove estados, do Maranhão ao Espírito Santo, percorrendo 3 mil quilômetros da costa brasileira.
O projeto “De Manuel Luís a Trindade”, da FEST, terá atuação no Maranhão, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e Espírito Santo, com ações de mapeamento e monitoramento de ambientes recifais, conservação da biodiversidade, manejo de espécies invasoras e turismo de base comunitária. O projeto está ancorado no Plano de Ação Nacional para Conservação dos Ambientes Coralíneos (PAN Corais) e marca a conclusão de aprovações do primeiro ciclo da Chamada BNDES Corais.
Já o projeto “A Virada dos Recifes de Coral – Traçando um Novo Rumo para a Conservação dos Corais no Brasil”, do WWF Brasil/Fundação Grupo Boticário concentrará sua atuação em regiões de Pernambuco (Tamandaré), Bahia (Salvador e Abrolhos Terra e Mar) e Ceará (Fortaleza). Em Alagoas, o projeto prevê Maragogi como uma das regiões que permitirão continuidade e aprofundamento a estudos de reprodução e genética.
O conjunto das duas operações alcançará áreas como o Parcel Manuel Luís, no Maranhão; Jericoacoara, no Ceará; Atol das Rocas, no Rio Grande do Norte; Barra do Rio Mamanguape, na Paraíba; Fernando de Noronha e Tamandaré, em Pernambuco; Costa dos Corais, entre Pernambuco e Alagoas; Abrolhos e outros territórios do sul da Bahia, Salvador e Ilha de Itaparica; e a Cadeia Vitória-Trindade e o Arquipélago de Trindade e Martim Vaz, no Espírito Santo.
“A conservação dos recifes de coral envolve, ao mesmo tempo, proteção da biodiversidade, produção de conhecimento e atividades econômicas ligadas a esses ambientes. Os dois projetos atuam em diferentes pontos da costa e reúnem monitoramento, pesquisa, restauração e ações de uso sustentável. Com isso, ampliamos o conhecimento sobre esses ecossistemas e as ações voltadas à sua conservação e recuperação”, afirma o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante.
Os recifes de coral abrigam mais de 25% da vida marinha e prestam serviços ambientais relevantes, como proteção da costa, manutenção da biodiversidade, segurança alimentar e geração de renda para comunidades ligadas à pesca e ao turismo. Ao mesmo tempo, estão entre os ecossistemas mais vulneráveis às mudanças climáticas e a outras pressões, como poluição, ocupação desordenada da zona costeira, sobrepesca e turismo predatório. No Brasil, os recifes vêm registrando redução da cobertura coralínea e episódios de branqueamento associados ao aumento da temperatura dos oceanos.
Os recursos do BNDES para as duas operações são provenientes do Fundo Socioambiental e têm caráter não reembolsável. Os projetos têm prazo previsto de execução de 36 meses.
De Manuel Luís a Trindade – O BNDES aprovou R$ 16,36 milhões para o projeto “De Manuel Luís a Trindade”, executado pela FEST em articulação com o ICMBio. O investimento total será de R$ 33,01 milhões. Desse montante, R$ 16,36 milhões serão aportados pelo Fundo Socioambiental do BNDES e R$ 16,65 milhões correspondem à contrapartida com recursos do ICMBio. A FEST será responsável pela execução do projeto.
A iniciativa atuará em 14 unidades de conservação. No Maranhão, as ações alcançarão o Parque Estadual Marinho do Parcel de Manuel Luís; no Ceará, o Parque Nacional de Jericoacoara; no Rio Grande do Norte, a Reserva Biológica do Atol das Rocas; e, na Paraíba, a Área de Proteção Ambiental da Barra do Rio Mamanguape. Em Pernambuco, estão contempladas a Área de Proteção Ambiental de Fernando de Noronha e o Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha, além da Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais, que se estende também por Alagoas. No estado alagoano, o projeto alcançará ainda a Reserva Extrativista Marinha da Lagoa de Jequiá.
Na Bahia, as ações ocorrerão na Reserva Extrativista Marinha do Corumbau, no Parque Nacional Marinho dos Abrolhos e na Reserva Extrativista de Cassurubá. No Espírito Santo, serão atendidas a Área de Proteção Ambiental Costa das Algas, o Refúgio de Vida Silvestre de Santa Cruz e a Área de Proteção Ambiental do Arquipélago de Trindade e Martim Vaz. O projeto também realizará levantamentos na plataforma continental de Sergipe, Alagoas e Pernambuco e em montes e cadeias oceânicas.
Uma das principais frentes será o mapeamento e a caracterização de ambientes recifais ainda pouco conhecidos, com técnicas acústicas, sensoriamento remoto, imageamento e levantamentos de campo. O trabalho abrangerá o Parcel Manuel Luís; os montes submarinos das cadeias de Fernando de Noronha e Norte Brasileira; a plataforma de Sergipe, Alagoas e Pernambuco; a Cadeia Vitória-Trindade; a plataforma de Abrolhos; e o Recife de Timbebas, na Bahia. Os estudos deverão produzir mapas de habitats, batimetria tridimensional, imagens e vídeos de alta resolução e informações para apoiar a gestão e conservação dessas áreas.
Na região de Abrolhos, o projeto vai estruturar um programa de monitoramento de budiões e outros peixes recifais ameaçados no Parque Nacional Marinho dos Abrolhos e nas reservas extrativistas de Cassurubá e Corumbau. O trabalho envolverá pesquisadores, equipes das unidades de conservação, centros de pesquisa do ICMBio, pescadores e comerciantes de pescado.
Também no sul da Bahia, pescadores artesanais e outros moradores de Alcobaça, Caravelas e Nova Viçosa poderão participar de formação para atuar como condutores de visitantes e mergulhadores, dentro das ações de turismo de base comunitária e ciência cidadã. Está prevista ainda a instalação de poitas para turismo, pesquisa e fiscalização, reduzindo a necessidade de lançamento de âncoras em ambientes sensíveis.
Outra frente será dedicada à prevenção, detecção precoce e manejo de espécies exóticas invasoras, como o coral-sol e o peixe-leão. O projeto também ampliará ações do Programa Nacional de Monitoramento da Biodiversidade, o Programa Monitora, em unidades de conservação marinhas e desenvolverá um protocolo para avaliação da saúde dos corais.
As informações produzidas pelas diferentes frentes serão reunidas em um banco de dados em nuvem e em uma plataforma de acompanhamento dos ambientes coralíneos, com dados atuais e históricos. O sistema será de acesso público e deverá apoiar gestores, pesquisadores e outros usuários na identificação de mudanças e tendências nesses ecossistemas.
“O projeto apoiará a capacidade do ICMBio de monitorar os recifes de corais, identificar novas áreas de ocorrência e ampliar as ações de conservação e recuperação desses ecossistemas em Unidades de Conservação”, afirmou o analista Ambiental e coordenador do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Tartaruga Marinhas e Biodiversidade Marina do Leste (Centro TAMAR/ICMBio), João Carlos Thomé.
Entre os resultados previstos, além do apoio às 14 unidades de conservação, estão a aquisição de 137 equipamentos para atividades de campo, o monitoramento de 16 espécies e a identificação e acompanhamento de 12 espécies exóticas ou invasoras. A iniciativa deverá capacitar 510 pessoas, sendo 255 mulheres, e beneficiar diretamente cerca de 600 pessoas. A expectativa é que 450 participantes, entre eles 200 mulheres, apliquem os conhecimentos adquiridos. As atividades científicas envolverão 114 pesquisadores e técnicos e incluem a realização de 16 seminários e oficinas de integração sobre conservação e uso sustentável da biodiversidade.
A Virada dos Recifes de Coral – O projeto “A Virada dos Recifes de Coral – Traçando um Novo Rumo para a Conservação dos Corais no Brasil” terá investimento total de R$ 17,86 milhões. O Fundo Socioambiental do BNDES aportará R$ 8,59 milhões; o WWF Brasil, cerca de R$ 5,48 milhões; e a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, aproximadamente R$ 3,79 milhões. WWF Brasil e Fundação Grupo Boticário participam como financiadores e executores da iniciativa.
O projeto vai atuar na conservação e restauração dos recifes, no desenvolvimento de tecnologias e pesquisas aplicadas, no fortalecimento do turismo sustentável e no apoio a negócios de impacto associados à conservação.
“Os recifes de coral brasileiros estão nos mostrando que não temos mais tempo para trabalhar de forma fragmentada. Quando um recife se perde, não perdemos apenas a biodiversidade: aumentamos a vulnerabilidade das cidades e comunidades costeiras e comprometemos fontes de alimento e renda de milhares de pessoas. A Virada dos Recifes nasce com a ambição de ajudar o Brasil a proteger o que ainda está saudável, restaurar áreas degradadas e dar escala a uma agenda de conservação fundamental capaz de responder à velocidade das mudanças que já estamos vendo no oceano”, afirma Mauricio Voivodic, diretor-executivo do WWF-Brasil.
Em Tamandaré (PE), o projeto dará continuidade ao monitoramento e à restauração passiva de uma área recifal protegida desde 1999 e realizará estudos sobre qualidade da água, sedimentação, pesca, turismo e outros fatores de pressão sobre os corais. A região reúne a Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais, o Parque Natural Municipal do Forte de Tamandaré e a APA de Guadalupe.
Os pesquisadores vão identificar colônias mais resistentes aos episódios de branqueamento e estudar suas características genéticas e fisiológicas. Entre as técnicas previstas estão fertilização in vitro, criopreservação de gametas e larvas, implantação de berçários fora do ambiente marinho e reintrodução de corais em áreas consideradas prioritárias. Também será criado um banco de células e gametas de corais brasileiros para preservar material genético e apoiar futuras ações de restauração.
No território Abrolhos Terra e Mar, no sul da Bahia, uma das frentes será voltada ao fortalecimento do uso público e do turismo sustentável em unidades de conservação. Estão previstas capacitação de gestores e empreendedores locais, estruturação e divulgação de roteiros turísticos, melhoria da sinalização e desenvolvimento de materiais e tecnologias para visitação. As atividades abrangem o Parque Nacional Marinho de Abrolhos, a APA Ponta das Baleias, o Parque Nacional do Descobrimento, o Parque Nacional e Histórico do Monte Pascoal e as reservas extrativistas de Cassurubá, Corumbau e Canavieiras.
O projeto também trabalhará com o “Roteiro dos Corais”, desenvolvido com o ICMBio e comunidades tradicionais, e apoiará pequenos negócios vinculados ao turismo sustentável e à conservação, com ações para ampliar o acesso a mercados, fortalecer a governança local e estimular atividades econômicas compatíveis com a proteção dos ecossistemas marinhos.
Nas regiões metropolitanas de Salvador e Fortaleza, a iniciativa vai identificar e fortalecer negócios com impacto positivo sobre os recifes. Na Bahia, as ações estarão concentradas nas bacias dos rios Joanes e Jacuípe; no Ceará, nas bacias dos rios Pacoti e Cocó. Os negócios selecionados poderão receber capacitação, mentorias, apoio técnico e recursos para desenvolver suas atividades. Essa frente será articulada ao Movimento Viva Água, idealizado pela Fundação Grupo Boticário.
“As diferentes frentes do projeto em vários territórios do país se complementam com o objetivo comum de proteger os recifes de corais rasos brasileiros. Trabalhar com a repovoação de espécies e com a proteção das áreas existentes é tão importante quanto atuar em bacias hidrográficas de rios que desaguam nessas regiões e também podem comprometer a saúde desses ecossistemas essenciais”, afirmou a gerente de Conservação da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário, Marion Silva.
As ações de pesquisa e restauração contarão também com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o Instituto Recifes Costeiros (IRCOS), o Reef Bank e o Centro de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Nordeste (CEPENE), do ICMBio. O programa Maré de Ciência, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), participará das atividades de cultura oceânica, educação e aproximação entre ciência e políticas públicas. Essas instituições atuam como parceiras executoras, sem aporte financeiro.
Além das intervenções nos territórios, o projeto prevê ações de educação, comunicação e ciência cidadã, formação de professores e educadores, desenvolvimento de materiais didáticos, atividades em Escolas Azuis, campanhas nacionais e regionais e a produção de um documentário sobre os recifes brasileiros e as comunidades que dependem desses ecossistemas. Também está previsto o fortalecimento da rede de instituições que atuam na conservação de corais no Brasil.
Entre os resultados esperados estão diagnósticos e monitoramentos dos ecossistemas recifais, o mapeamento de áreas prioritárias para conservação e restauração, o desenvolvimento de tecnologias de reprodução e recuperação de corais e o fortalecimento de negócios e iniciativas de uso público sustentável. O projeto apoiará ainda pelo menos sete iniciativas de conservação e restauração de recifes, por meio da Teia de Soluções, da Fundação Grupo Boticário, e de projetos vinculados à Coalizão Corais do Brasil.
BNDES Corais – Os projetos foram selecionados na chamada pública BNDES Corais, criada para fortalecer a resiliência, reduzir perdas e promover a recuperação de corais rasos e bancos de corais ao longo de cerca de 3 mil quilômetros da costa brasileira, entre o Maranhão e o Espírito Santo. Com as duas novas operações, a iniciativa passa a reunir sete projetos aprovados, que somam cerca de R$ 108,5 milhões em investimentos, dos quais aproximadamente R$ 53,7 milhões correspondem a recursos do BNDES e R$ 54,9 milhões a contrapartidas dos parceiros.
Os dois projetos também contribuem para a implementação de políticas e estratégias nacionais de conservação dos ambientes coralíneos. O “De Manuel Luís a Trindade” está alinhado ao Plano de Ação Nacional para Conservação de Ambientes Coralíneos (PAN Corais) e ao Programa Nacional de Monitoramento da Biodiversidade (Programa Monitora). Já “A Virada dos Recifes de Coral” prevê apoio à implementação da Estratégia Nacional para Conservação de Recifes de Coral, em articulação com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).
Sobre a FEST – A Fundação Espírito-Santense de Tecnologia (FEST) é uma instituição privada sem fins lucrativos e fundação de apoio à Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Atua na execução e gestão de projetos de pesquisa, ensino, extensão, desenvolvimento científico e tecnológico e proteção ambiental. A FEST também atua como fundação de apoio ao ICMBio e será responsável pela execução do projeto com pesquisadores, técnicos, profissionais contratados e bolsistas, em articulação com os centros de pesquisa e conservação marinhos do Instituto.
“A grande importância deste projeto está em transformar a sustentabilidade, o reconhecimento do ambiente e a recuperação em mais do que compromissos: em uma plataforma de inovação voltada ao equilíbrio ecológico, à valorização ambiental e à resiliência dos nossos ecossistemas”, disse a diretora da FEST, Patrícia Bourguignon.
