O Maranhense|Noticias de São Luís e do Maranhão

SaúdeÚltimas Noticias

Genética, gestação e autismo: o que a medicina já consegue prever sobre o neurodesenvolvimento do bebê

Apesar dos avanços científicos, especialistas explicam por que o desenvolvimento da criança continua sendo a principal fonte de respostas sobre o neurodesenvolvimento

O conhecimento científico sobre o autismo avançou significativamente nas últimas décadas. Hoje, pesquisadores já identificaram centenas de alterações genéticas associadas ao neurodesenvolvimento e ampliaram a capacidade de monitorar a saúde do bebê ainda durante a gestação.

Mas até onde a medicina consegue ir?

O que pode ser observado durante o pré-natal? O que a genética já consegue revelar? E quais respostas só aparecem à medida que a criança cresce e se desenvolve?

Embora não exista um exame capaz de diagnosticar autismo durante a gravidez, especialistas afirmam que a combinação entre acompanhamento pré-natal, avaliação genética e observação dos primeiros anos de vida tem permitido compreender cada vez mais cedo as necessidades de desenvolvimento das crianças.

O que a genética e o pré-natal conseguem revelar

Segundo a ginecologista Karoline Prado, o pré-natal é uma das ferramentas mais importantes para acompanhar a saúde materna e fetal, permitindo identificar alterações estruturais, síndromes genéticas e fatores que possam impactar o desenvolvimento do bebê.

“Os exames realizados durante a gestação evoluíram muito nos últimos anos. Hoje conseguimos acompanhar com bastante precisão o desenvolvimento fetal, avaliar a formação dos órgãos e identificar diversas condições que exigem acompanhamento especializado. Mas é importante esclarecer que não existe um exame pré-natal capaz de diagnosticar autismo”, explica.

A especialista ressalta que o acompanhamento adequado durante a gravidez continua sendo essencial para promover saúde e identificar precocemente condições que possam demandar PL atenção após o nascimento.

“O pré-natal oferece informações valiosas sobre a saúde do bebê e da gestante. Quanto mais cedo identificamos fatores de risco ou condições específicas, maiores são as oportunidades de planejamento e cuidado para a família.”

O médico geneticista Paulo Zattar Ribeiro destaca que a genética tem desempenhado papel fundamental na compreensão do autismo, mas que ainda estamos longe de uma resposta simples.

“Hoje sabemos que o autismo possui uma importante contribuição genética. No entanto, não existe um único gene responsável pela condição. Estamos falando de uma interação complexa entre múltiplos fatores genéticos e biológicos que influenciam o desenvolvimento cerebral.”

Segundo ele, os avanços da genética têm permitido compreender melhor por que determinadas características aparecem em diferentes membros da mesma família.

“O transtorno do espectro autista (TEA) não é uma doença única, mas um conjunto de manifestações clínicas com diferentes causas. Do ponto de vista genético, elas podem ser classificadas em formas sindrômicas, nas quais o autismo faz parte de uma síndrome genética associada a outras alterações clínicas, e não sindrômicas, em que ocorre de forma isolada, geralmente por uma arquitetura genética complexa e multifatorial. Quando indicada, a investigação genética permite identificar a causa, orientar o prognóstico, o acompanhamento clínico e o aconselhamento genético da família”, explica Paulo.

O desenvolvimento infantil continua sendo a principal fonte de respostas

Apesar dos avanços científicos, os especialistas são unânimes ao afirmar que o desenvolvimento da criança continua sendo a principal ferramenta para identificar sinais de autismo.

Para a psicóloga e neurocientista Mayra Gaiato, uma das maiores transformações dos últimos anos foi justamente a ampliação do conhecimento sobre os marcos do desenvolvimento infantil.

“Quando falamos em autismo, o que mais nos ajuda não é um exame isolado. É a observação cuidadosa de como aquela criança se comunica, interage, brinca, aprende e responde ao ambiente ao longo do tempo.”

Segundo a especialista, muitas famílias acreditam que o diagnóstico depende de um teste específico, quando na verdade ele resulta da análise de múltiplos aspectos do desenvolvimento.

“Os primeiros anos de vida são extremamente ricos em informações. É nesse período que observamos habilidades como atenção compartilhada, comunicação social, flexibilidade comportamental e interação com outras pessoas. O diagnóstico surge a partir desse conjunto de observações.”

Mayra destaca que compreender o desenvolvimento infantil permite intervenções mais precoces e mais eficazes.

“Hoje sabemos que quanto mais cedo identificamos necessidades específicas de desenvolvimento, mais cedo conseguimos apoiar a criança e orientar a família. E isso pode fazer uma enorme diferença ao longo da vida.”

Informação reduz culpa e amplia oportunidades

Para os especialistas, um dos principais benefícios dos avanços científicos é ajudar famílias a substituir culpa por conhecimento.

“Muitas mães chegam ao consultório tentando encontrar uma causa específica ou algo que poderiam ter feito de forma diferente durante a gestação. Mas o autismo não é consequência de uma única escolha, de um alimento consumido ou de um comportamento isolado dos pais”, afirma Mayra.

Paulo Zattar Ribeiro reforça que o conhecimento atual aponta para uma condição complexa, influenciada por múltiplos fatores.

“A ciência tem avançado justamente para compreender essa complexidade. Quanto mais aprendemos sobre genética e neurodesenvolvimento, mais percebemos que respostas simplistas não explicam condições complexas.”

A ginecologista Karoline Prado acrescenta que a melhor estratégia continua sendo o acompanhamento adequado em todas as fases da vida.

“Um pré-natal bem conduzido, um acompanhamento pediátrico atento e a observação do desenvolvimento infantil formam uma rede de proteção extremamente importante para as crianças e suas famílias.”

Para Mayra, essa talvez seja a principal mensagem.

“Mais importante do que tentar prever tudo antes do nascimento é garantir que cada criança tenha oportunidades de desenvolvimento, acompanhamento de qualidade e uma rede de apoio preparada para compreender suas necessidades. É isso que realmente transforma trajetórias.”

À medida que a ciência avança, genética, gestação e neurodesenvolvimento deixam de ser áreas isoladas e passam a compor uma mesma conversa. Uma conversa que não busca prever o futuro de uma criança, mas compreender melhor suas necessidades para oferecer suporte cada vez mais cedo e de forma mais eficaz.

Fontes para entrevistas

Mayra Gaiato é psicóloga, neurocientista, autora de livros best-sellers e uma das principais referências brasileiras em autismo e neurodesenvolvimento. Atua na formação de profissionais e no apoio a famílias por meio de abordagens baseadas em evidências científicas, com destaque para a ABA Naturalista, a Teoria das Molduras Relacionais (RFT) e a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT).

Dr. Paulo Zattar Ribeiro é médico geneticista, especialista em doenças genéticas raras, neurodesenvolvimento e aconselhamento genético.

Dra. Karoline Prado é médica ginecologista e obstetra, com atuação em pré-natal, medicina fetal e saúde da mulher.