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O impacto das atividades domésticas na saúde física

As atividades domésticas e saúde raramente aparecem na mesma conversa. Cozinhar, lavar roupa, passar pano ou limpar banheiros são tarefas tão incorporadas à rotina que costumam ser vistas apenas como obrigações do dia a dia. No entanto, muitos desses movimentos repetitivos podem causar lesões semelhantes às observadas em ambientes industriais e corporativos, especialmente quando são realizados sem pausas, com postura inadequada ou excesso de esforço físico.

As lesões por esforços repetitivos (LER) figuram entre os principais agravos notificados no Brasil: entre 2018 e 2022, o país registrou 34.345 notificações de LER/DORT no Sistema de Informações de Agravos de Notificação (SINAN), com 77,2% dos casos associados a movimentos repetitivos e 82,2% com relato de dor. Embora frequentemente associadas ao ambiente profissional, essas condições também podem surgir em atividades realizadas dentro de casa.Embora frequentemente associadas ao ambiente profissional, essas condições também podem surgir em atividades realizadas dentro de casa.

Segundo o ortopedista Felipe Sena, em entrevista ao Jornal da Paraíba, a LER pode atingir diferentes estruturas do organismo. “A LER é qualquer dano causado a algum tecido (tendões, ligamentos, músculos, cápsulas das articulações, nervos, vasos, ossos) que comprometa a função normal de algum membro ou região corporal”, explica o especialista.

Quando a faxina vira fonte de lesão

Esfregar superfícies, torcer panos, carregar baldes cheios de água, alcançar objetos em locais elevados ou permanecer curvado por muito tempo são exemplos de movimentos repetitivos que, se praticados durante longos períodos, podem sobrecarregar os músculos e articulações.

Segundo Felipe Sena, a característica principal dessas lesões é justamente a repetição do esforço. “Como o próprio nome diz, tal lesão deve ser causada por esforço, sobrecarga ou uso repetitivo de determinada parte do corpo, que comumente está relacionada a algum tipo de trabalho ou atividade.”

O problema costuma surgir de forma gradual. Inicialmente, aparecem sinais como desconforto, sensação de peso nos braços, dores no pescoço ou na região lombar. Com a continuidade dos movimentos sem correção ou descanso adequado, os sintomas podem se intensificar e limitar atividades simples do cotidiano.

Outro fator que contribui para o surgimento das lesões é a falsa percepção de que as tarefas domésticas representam uma atividade física leve. Na prática, algumas delas exigem esforço considerável, principalmente quando realizadas por várias horas consecutivas.

As partes do corpo mais afetadas e por quê

As regiões mais atingidas pelas atividades domésticas costumam ser aquelas que concentram movimentos repetitivos ou sustentação de peso.

Os punhos estão entre os locais mais vulneráveis devido aos movimentos de torção, esfregação e manuseio constante de objetos. Ombros e pescoço também sofrem sobrecarga frequente, especialmente durante a limpeza de superfícies altas ou ao transportar peso.

A coluna também merece atenção especial. Movimentos repetitivos de flexão do tronco, levantamento inadequado de cargas e permanência prolongada em posições desconfortáveis aumentam o risco de dores lombares e inflamações musculares.

Joelhos e quadris também podem ser afetados durante atividades que exigem agachamentos frequentes ou permanência prolongada em pé. Com o tempo, a sobrecarga acumulada pode gerar dores persistentes e limitar a mobilidade.

Algumas medidas simples ajudam a reduzir o risco de lesões, como:

  • Alternar tarefas que utilizam grupos musculares diferentes;
  • Fazer pausas regulares durante a limpeza;
  • Evitar carregar peso excessivo;
  • Manter atenção à postura;
  • Interromper a atividade diante de dor persistente.

Quando os sintomas se tornam frequentes, a orientação é buscar avaliação médica para evitar a progressão das lesões.

Como a tecnologia pode reduzir a sobrecarga física

Estudos sobre ergonomia doméstica apontam que equipamentos automatizados podem contribuir para a redução da sobrecarga física imposta pelas tarefas de limpeza. A automatização de etapas repetitivas permite diminuir a exposição do corpo a movimentos potencialmente lesivos, sem eliminar completamente o esforço físico, mas reduzindo sua intensidade e frequência.

Aparelhos como a máquina de lavar roupa eliminam um dos movimentos mais prejudiciais da rotina doméstica: a torção repetitiva do tronco combinada com o esforço de espremer e torcer tecidos úmidos, ação diretamente associada a sobrecargas na coluna lombar e nos punhos.

Da mesma forma, equipamentos que automatizam a limpeza de pisos ou reduzem a necessidade de esfregar superfícies manualmente diminuem movimentos repetitivos dos braços, ombros e costas, conforme observado em análises de ergonomia aplicada ao ambiente doméstico.

Entretanto, especialistas alertam que a tecnologia não substitui cuidados básicos de ergonomia. Mesmo utilizando equipamentos modernos, é importante manter uma postura adequada, evitar jornadas prolongadas de limpeza e respeitar os limites do corpo.

Cuidar da casa também exige cuidar do corpo

A relação entre atividades domésticas e saúde costuma receber menos atenção do que outros fatores de risco para lesões musculoesqueléticas. Os movimentos realizados diariamente dentro de casa podem produzir efeitos acumulativos semelhantes aos observados em diversos ambientes de trabalho.

Dessa forma, reconhecer sinais precoce de sobrecarga, adotar hábitos ergonômicos e utilizar recursos que reduzam movimentos repetitivos são estratégias que ajudam a preservar a saúde a longo prazo.

Afinal, manter a casa organizada não deve significar colocar músculos, articulações e coluna sob esforço constante sem os cuidados necessários.