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Viagem ou contas em dia? Férias exigem planejamento para evitar dívidas 

“Quem não deve, não teme”. O ditado popular costuma ser lembrado quando o assunto é tranquilidade financeira, mas ganha ainda mais significado durante o período de férias. Com o aumento dos gastos com viagens, hospedagem, alimentação, lazer e compras, muitas famílias acabam recorrendo ao cartão de crédito ou ao parcelamento sem avaliar o impacto dessas despesas nos meses seguintes. Em tempos de inflação elevada e orçamento apertado, a decisão de viajar ou permanecer em casa pode fazer toda a diferença.

Foi exatamente esse cálculo que levou o professor Carlos Henrique Silva, casado e pai de três adolescentes, a cancelar uma viagem que havia planejado para o Chile durante as férias. Morador de São Luís, ele decidiu permanecer na capital para preservar o equilíbrio financeiro da família. “A vontade era viajar, principalmente porque as crianças estavam animadas. Mas colocamos tudo na ponta do lápis e percebemos que esse não era o momento. Se viajássemos agora, comprometeríamos o orçamento dos próximos meses. Preferimos adiar esse sonho e manter as contas em dia”, conta.

A decisão do professor se encaixa em uma realidade enfrentada por muitas famílias maranhenses. Um levantamento da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), da Fecomércio-MA, mostrou  que o número de famílias endividadas em São Luís cresceu de 25,1% em janeiro para 28,8% em março de 2026, um aumento de 3,7 pontos percentuais. Segundo a entidade, isso indica mais pressão sobre o orçamento doméstico e uma tendência de crescimento da inadimplência.

A professora do curso de Direito da Estácio, Clayrtha Gonçalves, especialista em Direito do Consumidor, explica que o planejamento financeiro é a principal ferramenta para evitar que momentos de lazer se transformem em dificuldades futuras. Ela lembra que a Lei nº 14.181/2021, conhecida como Lei do Superendividamento, alterou o Código de Defesa do Consumidor justamente para prevenir situações em que as dívidas inviabilizam a manutenção da própria família. “A prevenção do superendividamento busca evitar que o consumidor, por causa das dívidas de consumo, fique impossibilitado de pagar suas contas e, ao mesmo tempo, garantir o mínimo necessário para a sua subsistência e de sua família”, destaca.

O momento econômico também exige cautela. Dados do IBGE mostram que São Luís passou a liderar o ranking nacional da inflação acumulada em 2026. No primeiro semestre, o IPCA da capital alcançou 4,37%, superando a média do Brasil, de 3,36%, e ultrapassando Aracaju (4,20%), que aparece na segunda posição. No acumulado dos últimos 12 meses, a inflação em São Luís também avançou para 4,72%, acima do teto da meta inflacionária de 4,5% estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional. 

Nesse ambiente, muitos consumidores recorrem ao cartão de crédito para manter o padrão de consumo. A pesquisa revela que 78,2% das dívidas das famílias estão concentradas no cartão de crédito, modalidade que também está entre as que cobram os juros mais elevados do mercado.

Por isso, antes de assumir qualquer compromisso financeiro, Clayrtha Gonçalves orienta que o consumidor avalie cuidadosamente todas as condições do contrato. “Muitas vezes o consumidor enxerga apenas o valor mensal da parcela, mas é fundamental observar o custo total do contrato, as taxas de juros, multas e demais encargos previstos”, alerta. Segundo ela, o crédito deve ser utilizado de forma consciente, considerando o impacto que aquela contratação terá no orçamento da família.

A especialista também chama a atenção para a importância da educação financeira e do acesso à informação de qualidade. “O consumidor precisa conhecer os seus direitos em fontes seguras. Nem toda informação divulgada nas redes sociais é completa ou correta. Além disso, a educação financeira deve fazer parte da rotina das famílias desde cedo”, afirma.

Para quem já enfrenta dificuldades para pagar as contas, a legislação oferece alternativas. A professora explica que o consumidor pode buscar a renegociação das dívidas por meio de acordos realizados no Procon ou até recorrer à Justiça para apresentar um plano de pagamento. “O Código de Defesa do Consumidor garante mecanismos para refinanciar e reorganizar as dívidas, permitindo que o consumidor recupere o equilíbrio financeiro sem comprometer o mínimo necessário para viver com dignidade”, ressalta.

Enquanto a próxima viagem não acontece, Carlos Henrique garante que a escolha foi a mais sensata. “As férias podem ser aproveitadas de várias formas. Vamos conhecer lugares aqui mesmo em São Luís, reunir a família e descansar. Viajar é bom, mas ter tranquilidade para pagar as contas quando as férias acabarem é ainda melhor”, conclui.