Solteiro, conhecendo alguém ou em um relacionamento? Saúde sexual também entra na conversa
Aparência, intimidade e estado civil não substituem prevenção, testagem e aquela conversa que muita gente ainda evita antes do sexo
No Maranhão, muita gente está oficialmente fora de um relacionamento. Dados do Censo 2022 mostram que 33,9% da população de 10 anos ou mais nunca viveu em uma união conjugal, a maior proporção entre os estados brasileiros. O número é superior à média do país, que na ocasião da pesquisa era de 30,1%.
Os números não refletem necessariamente quem está namorando, ficando, usando aplicativo ou simplesmente muito bem sem procurar ninguém, mas ajudam a mostrar a diversidade das relações afetivas e sexuais que existem fora de casamento e uniões estáveis, já que quantidade de relacionamentos não define, sozinha, uma vida sexual saudável ou de risco. “Ter uma vida sexual ativa não é, por si só, um comportamento de risco. O mais importante é que cada relação seja baseada em consentimento e que sejam adotadas estratégias de prevenção, como uso de preservativos, vacinação, testagem para ISTs quando indicada e acompanhamento dos métodos contraceptivos, quando houver possibilidade de gravidez”, explica Erika Chaib, professora do IDOMED São Luís.
Aparências enganam
Aquela velha tentativa de avaliar o risco pelo currículo amoroso, pela aparência ou pelo quanto se conhece uma pessoa não funciona. Muitas Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) podem permanecer sem sintomas, o que significa que alguém pode estar infectado sem saber. “O principal cuidado é não associar a aparência ou o estado civil da pessoa ao risco. Muitas infecções podem não apresentar sintomas, portanto, conhecer o parceiro não substitui a prevenção e a testagem”, alerta Erika.
O Ministério da Saúde reforça que qualquer pessoa que tenha uma relação sexual desprotegida pode adquirir uma IST, independentemente de idade, estado civil ou classe social. Entre as principais formas de prevenção está o uso correto do preservativo em todas as relações sexuais. Embora indispensável, no entanto, ele não precisa carregar sozinho toda a responsabilidade. “Hoje, o SUS trabalha com o conceito de prevenção combinada, que reúne diferentes estratégias de acordo com a situação de cada pessoa. Entre elas estão testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C, vacinação contra HPV e hepatite B, além das profilaxias pré e pós-exposição ao HIV, conhecidas como PrEP e PEP”, enumera.
“Para pessoas que têm parceiros novos ou múltiplos parceiros, vale conversar sobre prevenção, histórico de testagem e práticas sexuais antes da relação. Essa conversa deve ser encarada como uma atitude de responsabilidade e não como julgamento”, orienta a professora.
QUESTIONAMENTOS
“Quando foi sua última testagem?”. Essa é uma pergunta com potencial para travar muitos encontros. Perguntar sobre camisinha, exames ou histórico de testagem ainda pode parecer pouco romântico, especialmente entre duas pessoas que acabaram de se conhecer.
Segundo Erika, vergonha e medo de julgamento ainda dificultam essas conversas, assim como a sensação de que falar em prevenção pode “quebrar o clima”. Só que o assunto pode ser muito menos complicado do que parece. “É possível abordar de forma simples e direta. O convite para usar o preservativo ou as perguntas sobre a última testagem devem acontecer com respeito e sem constrangimento”, orienta. Por outro lado, a conversa também não precisa partir da ideia de que alguém está escondendo alguma coisa. “Prevenção não significa desconfiança. Cuidar da saúde sexual é uma responsabilidade individual e também uma forma de cuidado com o outro”, acrescenta.
A professora alerta, também, que certos limites não podem ser negociados. “Consentimento e proteção caminham juntos. Ninguém deve ser pressionado a abrir mão do preservativo ou de qualquer outra medida de proteção para manter uma relação”, reforça Erika.
HORA DO TESTE
Sintomas como coceira, corrimento ou feridas na região íntima podem levar alguém a procurar atendimento médico. Só que a ausência desses sinais não significa, necessariamente, que está tudo bem. “A ausência de sintomas não significa ausência de infecção”, alerta Erika.
Não existe uma frequência única de testagem que sirva para todo mundo. Segundo a professora, a periodicidade depende de fatores como número de parceiros, práticas sexuais, uso de preservativo, histórico de ISTs e situações recentes de exposição.
“O SUS oferece gratuitamente testes para HIV, sífilis e hepatites B e C. É importante procurar orientação mesmo sem sintomas após uma relação sem preservativo ou em caso de rompimento da camisinha, quando um dos parceiros recebe diagnóstico de IST ou diante de outra situação considerada de risco”, explica Erika Chaib.
Se a exposição ao HIV ocorreu há pouco tempo, existe ainda uma informação que pode fazer diferença: a PEP. A profilaxia pós-exposição é oferecida gratuitamente pelo SUS e deve ser iniciada o mais rapidamente possível, em até 72 horas após uma situação de risco.Já a PrEP funciona antes da exposição e pode ser indicada para pessoas que apresentam maior risco de adquirir HIV.
Pílula e DIU não substituem camisinha
Quando existe possibilidade de gravidez, outro equívoco comum é colocar prevenção de IST e contracepção no mesmo pacote.
Pílula anticoncepcional, DIU, implante e outros métodos podem prevenir uma gestação, mas não protegem contra ISTs. Por isso, a chamada dupla proteção associa o método contraceptivo escolhido ao preservativo.
“Um dos principais erros é acreditar que uma relação casual apresenta menor possibilidade de gravidez ou que determinadas práticas, como o coito interrompido, são métodos contraceptivos confiáveis”, explica Erika. Outro erro é deixar a camisinha para os minutos finais. “O preservativo deve ser colocado antes do contato genital e utilizado durante toda a relação sexual”, orienta.
A vacinação também faz parte desse cuidado. O calendário do SUS inclui a vacina contra hepatite B e a imunização contra HPV para os públicos indicados. Em 2026, o Ministério da Saúde prorrogou até dezembro a estratégia de resgate vacinal contra o HPV para jovens de 15 a 19 anos que perderam a vacinação na idade recomendada.
No fim das contas, seja em uma relação longa, em um novo relacionamento ou naquela história que ainda nem ganhou nome, saúde sexual exige informação suficiente para fazer escolhas e liberdade para estabelecer limites. “Ter uma vida sexual ativa, inclusive sem um parceiro fixo, pode fazer parte de uma vida saudável. O fundamental é que isso aconteça com informação, consentimento, respeito, prevenção e acesso aos serviços de saúde quando necessário”, conclui Erika Chaib.
No dia 04 de setembro, é celebrado o Dia Mundial da Saúde Sexual. Criada pela World Association for Sexual Health (WAS), a data chama atenção para uma ideia que inclui prevenção, mas não termina nela: saúde sexual envolve também bem-estar físico e emocional, autonomia, consentimento, informação e respeito aos próprios limites.
