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Itaú Cultural Play estreia coletânea de documentários restaurados pela Cinelimite

Seleção reúne três filmes que dedicados à memória das lutas sociais e políticas do país. Como Filme do Mês, a plataforma apresenta o longa de terror As boas maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra

Em 27 de outubro, a Itaú Cultural Play (IC Play), plataforma gratuita de streaming dedicada ao audiovisual brasileiro, estreia Restauros Cinelimite: memória e resistência, coletânea que reúne três documentários brasileiros dedicados à memória das lutas sociais e políticas do país. As obras registram trajetórias de lideranças sindicais, a repressão durante a ditadura e a mobilização de trabalhadores diante da violência, recuperando imagens e relatos fundamentais para a preservação da história brasileira.

O acesso à Itaú Cultural Play é gratuito, disponível em itauculturalplay.com.br, nas smart TVs da Samsung, LG, Android TV e Apple TV, nos aplicativos para dispositivos móveis (Android e iOS) e Chromecast. Parte do conteúdo da IC Play também está disponível nas plataformas SKY+ e Watch Brasil.

A seleção integra o trabalho da Cinelimite, organização dedicada à preservação, restauro, pesquisa e difusão do cinema brasileiro de repertório. Por meio da restauração digital, o laboratório busca recuperar a qualidade visual dos filmes, reduzindo marcas provocadas pelo tempo, pelo manuseio e pela deterioração dos materiais, sem descaracterizar suas características originais. O processo combina ferramentas automatizadas e intervenções manuais, com atenção à preservação de texturas, grãos e detalhes da imagem.

Restauros

Abrindo a coletânea, Santo e Jesus, Metalúrgicos (São Paulo, 1985), de Cláudio Kahns e Antonio Paulo Ferraz, parte do assassinato do operário Nelson Pereira de Jesus para investigar as condições de trabalho em uma fábrica de São Paulo durante a ditadura. Narrado pelo ativista sindical Santo Dias, colega de Nelson, o documentário registra a situação dos trabalhadores e a mobilização por direitos, que culmina em uma greve. Um ano depois, Santo Dias também foi morto por um policial militar. A obra constitui um registro das lutas trabalhistas e da repressão política no período, preservando a memória de pessoas que se organizaram em defesa de seus direitos.

Em Eunice, Clarice, Thereza (Rio de Janeiro, 1979), Joatan Vilela Berbel reúne os depoimentos de Eunice Paiva, Clarice Herzog e Thereza Fiel, que perderam seus companheiros durante a ditadura: o deputado Rubens Paiva, o jornalista Vladimir Herzog e o metalúrgico Manoel Fiel Filho, respectivamente. A partir das experiências pessoais das três mulheres, o documentário revela os impactos da repressão sobre as famílias e transforma relatos íntimos em testemunhos da violência de Estado. Produzido em um período marcado pela censura, o filme circulou em sindicatos, cineclubes e espaços de ativismo. Em 2025, recebeu restauração digital em 2K, realizada pela Cinelimite sob supervisão do diretor, a partir de uma cópia preservada no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro. O trabalho recuperou cores desbotadas e reduziu sujeiras acumuladas no material, permitindo que o documentário voltasse a circular em melhores condições de imagem.

A compilação também apresenta Margarida, Sempre Viva (Paraíba, 1983), de Cláudio Barroso, que registra a comoção popular após o assassinato de Margarida Maria Alves, liderança sindical rural morta em 12 de agosto daquele ano, em Alagoa Grande, na Paraíba. Por meio de entrevistas, depoimentos de familiares e registros da mobilização local, o filme documenta a reação da comunidade e a organização dos trabalhadores rurais diante da violência no campo. Primeira mulher a presidir um Sindicato dos Trabalhadores Rurais na Paraíba, Margarida tornou-se uma referência na luta pelos direitos das trabalhadoras e dos trabalhadores rurais. Seu legado também está na origem da Marcha das Margaridas, mobilização nacional de mulheres do campo, da floresta e das águas realizada desde 2000.

Filme do mês

No dia 30 de outubro, a IC Play apresenta As boas maneiras (São Paulo, 2017), longa-metragem de terror dirigido por Juliana Rojas e Marco Dutra. Na trama, Clara, uma enfermeira solitária que vive na periferia de São Paulo, é contratada pela misteriosa e rica Ana para cuidar de seu futuro bebê. À medida que as duas se aproximam, acontecimentos inesperados revelam aspectos sombrios da gestação.

Com Isabél Zuaa, Marjorie Estiano, Miguel Lobo e Cida Moreira no elenco, o filme combina terror, fantasia e suspense para abordar maternidade, desigualdade social e exclusão. A produção recebeu o Prêmio Especial do Júri no Festival de Locarno, na Suíça, e conquistou o prêmio de Melhor Filme de Ficção na Première Brasil do Festival do Rio.

FICHAS E SINOPSES DOS FILMES

Santo e Jesus, Metalúrgicos

de Cláudio Kahns e Antonio Paulo Ferraz (documentário, 58 min, São Paulo, 1985)

Classificação indicativa: A14 – Violência e drogas lícitas

Sinopse: Nelson Pereira, operário metalúrgico em São Paulo, é assassinado durante a ditadura militar brasileira. A investigação acerca da sua morte é narrada neste documentário pelo ativista sindical Santo Dias, funcionário no mesmo local, que expõe a situação dos trabalhadores e inicia uma greve na indústria. Um ano depois, o líder da mobilização também é morto por um soldado da Polícia Militar.

Eunice, Clarice, Thereza

de Joatan Vilela Berbel (documentário, 16 min, Rio de Janeiro, 1979)

Classificação indicativa: A12 – Temas sensíveis e violência

Sinopse: As histórias de três mulheres se cruzam a partir de suas perdas em comum: Eunice Paiva, Clarice Herzog e Thereza Fiel. Depoimentos marcantes eternizam de maneira íntima as memórias de seus viúvos, presos políticos durante a ditadura militar brasileira, em um período de repressão e apagamento histórico.

Margarida, Sempre Viva

de Cláudio Barroso (documentário, 40 min, Paraíba, 1983)

Classificação indicativa: A12 – Temas sensíveis, drogas lícitas e violência

Sinopse: O filme registra em tempo real as reações populares após o assassinato da líder sindical Margarida Maria Alves. A comoção pública da comunidade local toma conta das ruas da Paraíba e denuncia as violências vivenciadas durante as lutas camponesas. A organização dos trabalhadores rurais é a protagonista deste documentário que conta com entrevistas e depoimentos de familiares e moradores de Alagoa Grande.

As boas maneiras

de Juliana Rojas e Marco Dutra (terror, 135 min, São Paulo, 2017)

Classificação indicativa: 14 – Conteúdo sexual e violência

Sinopse: Clara é uma enfermeira solitária da periferia de São Paulo contratada pela misteriosa e rica Ana como babá de seu bebê ainda durante a gravidez. À medida que as duas se aproximam, acontecimentos estranhos revelam um segredo sombrio envolvendo a gestação.

SERVIÇO:

Restauros Cinelimite: memória e resistência

27 de outubro

Na Itaú Cultural Play: www.itauculturalplay.com.br

As boas maneiras

30 de outubro

Na Itaú Cultural Play: www.itauculturalplay.com.br