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Entre pais e filhos: quase 1 milhão de brasileiros vivem os desafios da ‘geração sanduíche’

Mulheres são maioria entre adultos que dividem a rotina entre criação dos filhos e cuidados com os pais; saiba como reconhecer os sinais de sobrecarga

O despertador toca às 5h40. Mas, na maioria dos dias, já encontra Ana Maria Reis acordada. Aos 42 anos, a professora e mãe de dois filhos, um adolescente de 15 anos e uma menina de 9, começa o dia preparando o café da manhã para as crianças e administrando os primeiros medicamentos do pai, de 74 anos. Diagnosticado com doença de Parkinson, ele ainda mantém alguma autonomia, mas já precisa de ajuda em diferentes momentos da rotina.

Na sequência, uma manhã inteira de sala de aula, intercalada com mensagens da escola dos filhos. Às vezes, o dia inclui também alguma consulta médica ou exame do pai. A rotina também tem supermercado, conferir as tarefas de casa da criançada, serviços domésticos e dezenas de pequenas preocupações que não seguem horário comercial. Quando consegue sentar no sofá tarde da noite, às vezes pela primeira vez no dia, Ana frequentemente tem a sensação de que ficou devendo alguma tarefa.

“Quando estou com meu pai, penso que deveria estar dando mais atenção aos meus filhos. Quando faço alguma coisa com eles, a cabeça fica preocupada, pensando se meu pai está bem. E, quando tento fazer algo só para mim, parece que estou abandonando os três”, lamenta.

A rotina de Ana Maria é comum a milhares de brasileiros. São pessoas que chegaram à meia-idade em um momento em que, ao mesmo tempo em que os filhos ainda precisam de suporte, os pais já começaram a perder autonomia. Espremidos entre duas gerações que demandam cuidado, eles ganharam um nome: geração sanduíche.

No Brasil, um levantamento elaborado a partir de microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE, identificou 955 mil chefes de família ou seus cônjuges nessa situação. A pesquisa considera lares em que os adultos têm entre 35 e 49 anos, filhos de até 24 anos que moram com os pais e idosos de 65 anos ou mais. As mulheres representavam 60,2% desse grupo.

O fenômeno também aparece em outros países. No Reino Unido, levantamento do Office for National Statistics (ONS), divulgado em 2024, estimou a existência de 1,4 milhão de cuidadores-sanduíche entre 16 e 64 anos. Por lá, seis em cada dez também eram mulheres.

UM SANDUÍCHE NADA LEVE

A expressão pode soar recente, mas já tem mais de quatro décadas. O termo “sandwich generation” ganhou espaço na literatura científica em 1981, quando a pesquisadora e professora de Serviço Social Dorothy A. Miller publicou um artigo sobre adultos que se encontravam “espremidos” entre as necessidades dos pais em processo de envelhecimento e as dos próprios filhos.

Mais de 40 anos depois, o conceito permanece atual diante do aumento da longevidade e das transformações nas configurações familiares. Erickson Carvalho, psicólogo e professor da Estácio, explica que a terapia familiar sistêmica classifica esse período como uma etapa de transição do ciclo de vida familiar. “O impacto psicológico decorre de o indivíduo precisar dividir intensamente o seu tempo, apoiando o desenvolvimento e a independência dos filhos, enquanto precisa lidar com o envelhecimento e o aumento da dependência dos próprios pais”, explica.

Não é difícil entender por que essa equação pode pesar. O mesmo adulto que precisa pensar no futuro dos filhos começa a lidar com a perda progressiva de autonomia de quem, durante boa parte da vida, cuidou dele.

Um dos problemas relacionados a esse período é o “luto antecipatório”: o sofrimento relacionado à percepção das perdas e do declínio de uma pessoa querida antes mesmo de sua morte. Segundo Erickson, o cuidador pode acabar adiando projetos e necessidades próprias diante das obrigações familiares. “Esse acúmulo esmaga as energias do indivíduo, gerando conflito entre as necessidades da vida adulta e a nova carga de cuidado parental”, explica.

“NUNCA É SUFICIENTE”

Para Ana, lidar com o sentimento de culpa é mais difícil do que o próprio cansaço da rotina. Ela se cobra por perder compromissos escolares dos filhos, por perder a paciência com o pai às vezes e até nos raros momentos em que consegue sair para encontrar uma amiga. “Às vezes, eu só queria passar uma tarde sem ninguém precisar de mim. Aí penso isso e imediatamente me sinto uma filha e uma mãe horrível”, diz.

Essa contradição está longe de ser incomum. “A culpa é extremamente prevalente e se manifesta de forma paralisadora nessas dinâmicas”, explica Erickson. Na relação com os filhos, esse sentimento pode aparecer como medo de falhar na educação por estar ausente ou sobrecarregado. Já com os pais, surge principalmente quando o cuidador percebe que precisa estabelecer limites para preservar a própria saúde.

E existe ainda um sentimento sobre o qual muita gente evita falar: é possível amar profundamente alguém e, ao mesmo tempo, sentir raiva ou ressentimento pela sobrecarga de cuidar. Segundo Erickson, quando a pessoa considera esses sentimentos inaceitáveis e não consegue expressá-los, a frustração pode acabar se voltando contra ela mesma em forma de culpa.

Quem cuida de quem cuida?

Os números internacionais ajudam a mostrar que a sobrecarga pode ultrapassar o cansaço cotidiano. No estudo divulgado pelo ONS no Reino Unido, cerca de 31% dos cuidadores-sanduíche apresentaram evidências de depressão ou ansiedade, contra 24% dos adultos em geral. Entre esses cuidadores, 28% classificaram a própria saúde como regular ou ruim.

O peso também chega à vida profissional e financeira. Entre aqueles que cuidavam de uma pessoa doente, com deficiência ou idosa dentro de casa, 53% disseram que não conseguiam ter um emprego ou trabalhar tanto quanto gostariam por causa das responsabilidades de cuidado.

É justamente por isso que Erickson chama atenção para uma armadilha: a tentativa de dar conta de tudo sozinho. “O primeiro passo clínico é orientar o cuidador a renunciar à ilusão de ser um ‘salvador’ onipotente”, ressalta. Assumir isoladamente todas as demandas, segundo o psicólogo, abre caminho para o esgotamento físico e mental.

Na prática, isso significa reconhecer que reservar tempo para si não equivale a abandonar quem precisa de cuidado. Manter atividades de lazer, preservar relações afetivas, dividir responsabilidades e criar momentos nos quais a pessoa possa se afastar temporariamente das demandas do cuidado são estratégias importantes. Erickson define isso como a criação de “áreas pessoais livres de contaminação do estresse”. 

Para as pessoas da geração sanduíche, isso começa com a criação de uma rede de apoio, que vai muito além de um ombro amigo para conversar.  Para uma pessoa que precisa levar o pai ao médico, buscar o filho na escola e ainda cumprir uma jornada de trabalho, ajuda também significa alguém assumir uma tarefa concreta.

“Uma rede estável, sensível, ativa e confiável é o maior escudo de proteção contra o adoecimento psicológico de quem cuida de idosos ou de doentes crônicos”, destaca Erickson.

Essa rede pode atuar de diferentes maneiras: oferecendo apoio emocional sem julgamentos, dividindo tarefas domésticas e cuidados físicos, acompanhando o idoso em consultas, ficando com as crianças ou ajudando o cuidador a encontrar serviços de saúde e assistência. Em outras palavras, dizer “conte comigo” é importante. Perguntar “qual tarefa eu posso assumir esta semana?” pode ser ainda mais útil.

LIMITES

Depois de meses conciliando as necessidades do pai e dos filhos, Ana notou que estava dormindo cada vez menos. Deixou de encontrar as amigas e abandonou as caminhadas que costumava fazer no fim da tarde. “Não lembro a última vez em que fiz alguma coisa só porque tinha vontade”, queixa-se.

Choro frequente sem motivo aparente, fadiga persistente, falta de energia, insônia ou despertar precoce, perda importante de apetite, isolamento social e abandono de atividades que antes davam prazer estão entre os sinais apontados por Erickson como indicativos de que é hora de procurar ajuda profissional.

“A busca pela psicoterapia se faz mandatória quando o estressor atinge um nível que impede a transição normal do indivíduo e ameaça paralisar as perspectivas de desenvolvimento da própria família”, alerta.

Para quem vive entre filhos que ainda perguntam “mãe, você pode me ajudar?” e pais que começam a fazer a mesma pergunta, a lição mais importante é admitir que quem cuida também pode precisar ser cuidado. “Dividir responsabilidades, estabelecer limites ou reservar algumas horas para si não elimina o afeto nem significa abandonar a família. Pode ser, na verdade, o que permite que a pessoa continue presente e capaz de executar as tarefas”, conclui o psicólogo.