O Maranhense|Noticias de São Luís e do Maranhão|

Últimas Noticias

Câncer de mama antes dos 40: um alerta que não pode esperar

Estudo identificou 252 mortes nessa faixa etária entre 2014 e 2023; especialista explica por que mulheres jovens devem procurar avaliação diante de alterações nas mamas.

A história de Brenda Castro começou com um gesto simples durante o banho, em maio de 2024. Aos 30 anos, ela colocou a mão sobre a mama e percebeu um pequeno caroço que não estava ali antes. O detalhe chamou ainda mais sua atenção porque, apenas três meses antes, em fevereiro, ela havia realizado exames preventivos que não apontaram nenhuma alteração. “Como eu conheço o meu corpo, eu já sabia que aquele carocinho não fazia parte do meu corpo, porque ele não estava ali antes”, conta.

Brenda procurou atendimento médico e fez uma nova ultrassonografia das mamas e das axilas. O exame mostrou características diferentes no nódulo e ela foi encaminhada ao mastologista. Foi então que começou a investigação para o câncer de mama. Até aquele momento, ela não imaginava que pudesse enfrentar a doença tão jovem. Brenda sempre cuidou da saúde, mantinha uma alimentação equilibrada, praticava atividade física, fazia exames preventivos e também já buscava acompanhamento psicológico.

A confirmação do diagnóstico trouxe medo e mudou a rotina de Brenda. “Eu pensei que fosse morrer. Para mim era o fim”, lembra. A terapia, que já fazia parte da vida dela, passou a ser semanal e se tornou um dos principais pontos de apoio durante o tratamento. “É a âncora da minha vida”, afirma. Para Brenda, a experiência reforçou a importância de conhecer o próprio corpo e procurar atendimento diante de qualquer mudança, mesmo quando os exames anteriores não apontavamram alterações.

A história de Brenda ajuda a mostrar uma situação que pode passar despercebida: embora o câncer de mama seja mais frequente com o avanço da idade, mulheres mais jovens também podem desenvolver a doença. No Maranhão, um estudo publicado em 2026 analisou 2.506 mortes de mulheres por câncer de mama registradas entre 2014 e 2023 e identificou 252 óbitos entre mulheres de 20 a 39 anos. Foram 28 mortes na faixa de 20 a 29 anos e outras 224 entre 30 e 39 anos. 

Os números não representam a quantidade de mulheres jovens que tiveram câncer de mama no estado, mas mostram que a doença também está presente nessa faixa etária. No mesmo período, foram registrados 519 óbitos entre mulheres de 40 a 49 anos, enquanto as maiores proporções ficaram entre 50 e 59 anos, com 620 mortes, e 40 e 49 anos, com 519. 

Para 2026, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 1.130 novos casos de câncer de mama entre mulheres no Maranhão, com taxa bruta de 31,68 casos para cada 100 mil mulheres. 

No cenário nacional, os dados também mostram que o câncer de mama pode atingir mulheres antes dos 40 anos. Segundo o INCA, são estimados 78.610 novos casos por ano no Brasil entre 2026 e 2028, o equivalente a 71,57 casos para cada 100 mil mulheres. Embora cerca de quatro em cada cinco casos ocorram após os 50 anos, um estudo com registros de câncer de base populacional identificou que as mulheres com menos de 40 anos representaram 10,2% dos casos analisados. Nessa faixa etária, a incidência apresentou crescimento médio de 1,6% ao ano, passando de 6,68 para 7,63 casos por 100 mil mulheres. O levantamento também apontou que 64% das pacientes jovens avaliadas chegaram ao tratamento com a doença em estágio IIB ou superior. 

Os números nacionais ajudam a dimensionar o alerta observado no Maranhão, embora a maior parte dos casos esteja concentrada em mulheres mais velhas, o diagnóstico também ocorre entre as mais jovens.

Quando a idade não conta a história toda

A oncologista Noele Gomes, do Hospital São Domingos, explica que mulheres mais jovens precisam estar atentas a mudanças nas próprias mamas, mesmo que não estejam na faixa etária prioritária do rastreamento mamográfico.

A ausência no rastreamento de rotina, no entanto, não significa que uma mulher com menos de 40 anos deva ignorar as alterações. O INCA orienta que sinais suspeitos sejam investigados e ressalta que a mamografia pode ser solicitada em qualquer idade quando houver indicação médica. Entre os sinais que precisam de avaliação estão nódulo, alterações na pele da mama, retrações e secreção anormal pelo mamilo. 

Por isso, a orientação é diferente de simplesmente recomendar que todas as mulheres jovens façam mamografia de rotina. O mais importante é reconhecer alterações e procurar atendimento para que o profissional de saúde avalie qual exame é adequado para cada situação.

“É importante que essa mulher que ainda não chegou na fase do rastreio regular conheça bem a sua mama e que vá ao ginecologista para orientação”, explica Noele.

Histórico familiar pode mudar a conduta

A idade também não é o único fator considerado na avaliação. Mulheres com histórico familiar de câncer de mama ou de ovário podem precisar de acompanhamento individualizado e, em determinadas situações, iniciar a investigação antes da faixa etária indicada para a população em geral.

O histórico familiar deve ser informado durante a consulta, principalmente quando envolve parentes de primeiro grau. A partir dessas informações, o profissional pode avaliar o risco individual e definir a necessidade de exames ou acompanhamento específico.

O próprio Ministério da Saúde orienta que mulheres com histórico familiar de primeiro grau procurem uma unidade de saúde para avaliar individualmente a necessidade de iniciar o rastreamento antes da idade preconizada. 

Tumores podem ter comportamento diferente

A atenção entre mulheres jovens também está relacionada às características de alguns tumores diagnosticados nessa faixa etária.

Segundo Noele Gomes, pacientes com menos de 40 anos podem apresentar tumores com maior grau de proliferação celular. “Nas pacientes mais jovens, nas mulheres antes dos 40 anos, elas possuem tumores mais proliferativos, tumores de um grau maior, que fazem com que a doença tenha uma biologia mais agressiva”, afirma.

A afirmação não significa que todo câncer de mama em uma mulher jovem será mais agressivo. O comportamento da doença varia conforme o tipo de tumor e suas características biológicas. Por isso, o diagnóstico precisa ser seguido de uma avaliação individualizada.

A história de Brenda não substitui o acompanhamento médico, mas reforça uma orientação que vale para mulheres de diferentes idades: qualquer alteração persistente ou suspeita nas mamas deve ser avaliada por um profissional de saúde. A investigação precoce permite identificar a doença e definir o tratamento adequado para cada caso.