Prevenção ao suicídio marca encerramento do Setembro Amarelo
“Saber ouvir, perceber quando alguém não está bem, oferecer uma palavra de apoio, estar presente e compreender que ninguém precisa enfrentar sozinho um momento de sofrimento.”
Foi a partir dessa perspectiva de cuidado e acolhimento que o coordenador do Núcleo de Atenção Psicossocial (NUAPSI), desembargador Jorge Rachid Mubárack Maluf, abriu, nesta quarta-feira (30/9), a programação de encerramento do Setembro Amarelo – “Valorizando a Vida, Construindo Redes de Apoio“, promovido pelo Tribunal de Justiça do Maranhão (TJMA).
Realizado no Auditório José Joaquim Filgueiras, no Fórum Desembargador Sarney Costa, o evento reuniu magistrados/as, servidores/as e público externo em torno de uma programação dedicada à saúde mental, à prevenção do suicídio e ao fortalecimento das redes de apoio.
Ao longo do mês, o TJMA promoveu palestras, oficinas, visitas aos setores e fóruns, grupos de reflexão e ações de sensibilização, ampliando o diálogo sobre autocuidado, acolhimento, empatia, pertencimento e prevenção ao suicídio.
A programação desta quarta-feira (30/9) teve início com a palestra “Os suicídios diante de nós: compreensão, prevenção e cuidado”, ministrada pelo psicólogo Diogo Boccardi, especialista em Psicologia Clínica, mestre em Saúde Mental e doutorando em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Diogo foi coordenador do CAPS Ponta do Coral, em Florianópolis, entre 2014 e 2019, e atua como professor e supervisor em instituições de formação de profissionais de saúde mental. É autor do livro Viver não é preciso: discursos sobre suicídio no século XXI e pesquisa temáticas relacionadas aos suicídios, às psicoses e aos fundamentos das práticas clínicas.
A palestra foi mediada pelo psicólogo Gilberto Costa, que conduziu o diálogo com o palestrante ao longo da atividade.
COMPREENSÃO, PREVENÇÃO E CUIDADO
Ao iniciar a exposição, Diogo Boccardi chamou atenção para os desafios das estratégias de prevenção adotadas socialmente e defendeu a necessidade de repensar as formas de abordagem do tema.
Segundo o psicólogo, é necessário compreender o suicídio não apenas a partir de experiências individuais, mas também como uma questão de ordem social, considerando os diferentes contextos em que essas ocorrências acontecem. Para ele, situações distintas exigem estratégias de prevenção e formas de cuidado igualmente diferentes.
“A gente não começa pensando numa definição do suicídio como ocorrência individual, intrapsíquica ou neurobiológica. A gente vai começar pensando o suicídio como uma questão social para, daí, depois, poder incidir, é claro, nas vidas concretas de pessoas concretas que estão diante de nós”, afirmou.
Para exemplificar a relação entre contexto social e suicídio, o palestrante mencionou estudos realizados na Índia que apontam para uma redução dos índices de suicídio entre mulheres à medida que o divórcio passou a ser mais regulamentado e socialmente acessível em determinadas regiões. O exemplo foi utilizado para demonstrar como mudanças nas condições sociais e nas possibilidades de escolha podem repercutir diretamente nos índices de suicídio.
A partir desse e de outros exemplos apresentados durante a palestra, Boccardi defendeu a necessidade de ampliar o olhar sobre a prevenção, considerando não apenas aspectos individuais, mas também as condições sociais, os vínculos, o trabalho, a renda e as circunstâncias em que as pessoas estão inseridas.
A proposta, segundo Diogo, é deslocar o olhar de uma abordagem exclusivamente individual para uma perspectiva que também considere os fatores sociais envolvidos.
Ao encerrar sua exposição, o psicólogo ressaltou a importância de facilitar o acesso ao cuidado em saúde mental, especialmente para pessoas em situação de sofrimento. Mais do que recomendar a busca por atendimento especializado, destacou a necessidade de tornar claros os caminhos para esse acesso, fortalecendo a rede pública de saúde e os mecanismos de acolhimento disponíveis.
“É muito necessário dar acesso ao atendimento, não só falar para buscar o atendimento. E esse acesso tem que ser muito facilitado e explícito”, finalizou.
MESA-REDONDA
No período da tarde, a programação teve continuidade com a mesa-redonda “Para além dos muros institucionais: a Rede de Atenção Psicossocial e a continuidade do cuidado em saúde mental”.
O debate reuniu as psicólogas Anize Angela da Silva e Paula Ramos Almeida Penha, que contribuíram para a discussão sobre os caminhos de cuidado em saúde mental para além dos espaços institucionais.
A mesa-redonda integrou a programação de encerramento do Setembro Amarelo no TJMA, campanha que, ao longo do mês, promoveu ações de conscientização e espaços de diálogo sobre valorização da vida, prevenção do suicídio e construção de redes de apoio.
