O Maranhense|Noticias de São Luís e do Maranhão|

PlantãoÚltimas Noticias

Fafá de Belém, o Musical encerra temporada em São Luís deixando música, emoção e um legado de formação

Depois de duas semanas no Teatro Arthur Azevedo, espetáculo que celebra cinco décadas de carreira de Fafá de Belém se despede do Maranhão marcado pelo encontro com o público e por uma programação que levou conhecimento e novas possibilidades para quem vive e sonha com a arte

Há espetáculos que terminam quando as luzes se apagam. Outros permanecem.

“Fafá de Belém, o Musical” é daqueles que deixam alguma coisa depois que as cortinas se fecham. Deixam música, memória, imagens, histórias e, principalmente, a sensação de que a arte foi capaz de aproximar pessoas e atravessar gerações.

Durante duas semanas, o Teatro Arthur Azevedo, em São Luís, recebeu uma das grandes produções do teatro musical brasileiro. Entre os dias 20 e 30 de agosto, a capital maranhense mergulhou na história de uma artista que transformou a própria trajetória em parte da memória cultural do país.

A temporada maranhense encerrou um ciclo especial de apresentações e colocou São Luís no caminho de uma montagem que já havia passado por outras importantes capitais brasileiras, levando ao palco os 50 anos de carreira de Fafá de Belém.

Mas contar a história de Fafá nunca poderia ser apenas contar a história de uma cantora.

É contar a história de uma mulher que veio do Norte, carregando consigo a força de uma terra, de uma cultura e de uma identidade que nunca deixou para trás.

Uma vida contada no palco

O musical percorre diferentes momentos da trajetória de Fafá, começando pela infância em Belém e pelas memórias de uma Amazônia povoada por lendas, religiosidade, natureza e cultura popular.

A narrativa também acompanha a construção da carreira artística e chega ao presente, criando um diálogo entre a menina que nasceu no Norte e a artista que conquistou o Brasil.

No palco, diferentes atrizes dão vida à cantora em fases distintas de sua vida. Lucinha Lins interpreta Fafá em sua fase mais madura, enquanto Helga Nemetik e as atrizes mirins Laura Saab e Clarah Passos ajudam a construir outras etapas dessa trajetória.

É uma escolha que transforma o tempo em personagem.

A menina, a jovem artista, a mulher e a cantora consagrada aparecem como partes de uma mesma história, mostrando que, antes da grande voz conhecida pelo Brasil inteiro, existia uma menina cercada pelas referências culturais da Amazônia e por uma família que ajudou a formar sua personalidade.

A montagem também resgata episódios importantes da vida pública de Fafá, incluindo sua relação com a política, sua participação no movimento Diretas Já, sua ligação com Portugal e sua defesa de manifestações culturais que ajudaram a construir sua identidade artística.

Tudo isso aparece costurado à música.

Quando a Amazônia sobe ao palco

Um dos grandes diferenciais do espetáculo é justamente não tratar a Amazônia como pano de fundo. Ela está no centro da história. As lendas, os mitos, a religiosidade, a floresta, os rios, os personagens da cultura popular e a identidade amazônica ajudam a construir o universo em que Fafá nasceu e cresceu.  A montagem passeia por referências como a Cobra Grande, o Boto e o Círio de Nazaré e utiliza música, dança, iluminação, cenografia e figurinos para criar uma atmosfera que transporta o público para esse universo. É como se a Amazônia deixasse de ser cenário e passasse a ter voz. E essa voz encontra a música de Fafá. Canções como “Foi Assim”, “Amazônia”, “Bom Dia Belém”, “Coração do Agreste”, “Nuvens de Lágrimas”, “Abandonada” e “Vermelho” ajudam a contar uma trajetória construída ao longo de cinco décadas.

No final, quando “Vermelho” aparece e a energia do Boi de Parintins toma conta do palco, a história particular de uma cantora se transforma em uma celebração muito maior: a celebração da cultura brasileira em sua diversidade.

Uma grande produção

“Fafá de Belém, o Musical” foi idealizado e teve produção artística de Jô Santana, com texto e roteiro musical de Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche e direção artística de Gasparani.

A direção musical é de Marcelo Alonso Neves, com coreografia de Renato Vieira, cenografia de Ronald Teixeira, figurinos de Claudio Tovar e visagismo de Beto Carramanhos.

Por trás dos artistas que aparecem em cena existe uma grande estrutura de profissionais responsáveis para que cada detalhe aconteça.

São atores, músicos, produtores, técnicos, figurinistas, maquiadores, camareiros, iluminadores, cenógrafos, profissionais de comunicação e tantos outros trabalhadores que fazem do teatro uma verdadeira engrenagem.

É justamente essa dimensão que muitas vezes não aparece para quem está sentado na plateia. Quando as luzes se acendem, tudo parece acontecer naturalmente. Mas cada música, cada troca de figurino, cada movimento, cada entrada e cada efeito é resultado do trabalho de dezenas de pessoas.

São Luís também virou sala de aula

A passagem do musical pelo Maranhão não ficou limitada ao palco.

E talvez esse seja um dos aspectos mais importantes da temporada.

Entre os dias 25 e 29 de agosto, o Teatro Arthur Azevedo também recebeu uma programação gratuita de oficinas voltadas à formação cultural.

Teatro Musical, Produção Cultural e Ecoreciclagem fizeram parte da programação.

A proposta abriu as portas do teatro para pessoas que queriam não apenas assistir a um espetáculo, mas entender como ele acontece.

Quem participou pôde conhecer um pouco mais dos bastidores de uma produção artística, descobrir possibilidades profissionais e entrar em contato com conhecimentos que muitas vezes ficam restritos aos grandes centros culturais.

A iniciativa também reforçou uma característica cada vez mais importante dos grandes projetos culturais: o compromisso de não deixar apenas uma lembrança na cidade por onde passam.

É possível deixar conhecimento.

É possível deixar oportunidades.

É possível formar pessoas.

E é possível fazer com que a cultura continue circulando mesmo depois que a equipe de produção parte para o próximo destino.

Do palco para a profissão

Para quem sonha em trabalhar com teatro, música, produção cultural ou outras áreas da economia criativa, uma oficina pode representar muito mais do que algumas horas de aprendizado.

Pode representar o primeiro contato com uma profissão.

Pode despertar uma vocação.

Pode mostrar que existe um caminho possível.

Por isso, as oficinas realizadas em São Luís ampliaram o alcance da temporada.

Enquanto o espetáculo apresentava ao público uma grande história da música brasileira, a programação formativa olhava para o futuro.

De um lado, a memória de cinco décadas de carreira.

Do outro, novos profissionais começando a construir suas próprias histórias.

É nesse encontro entre passado e futuro que uma temporada cultural ganha ainda mais significado.

Um teatro cheio de histórias

O Teatro Arthur Azevedo foi o cenário escolhido para essa passagem por São Luís.

Um espaço histórico da cultura maranhense recebeu uma história que também nasceu no Norte e que, de muitas maneiras, dialoga com a identidade cultural da região.

Durante duas semanas, o teatro foi ponto de encontro para diferentes públicos.

Gente que conhecia Fafá desde os primeiros discos. Gente que cresceu ouvindo suas músicas. Gente que descobriu a artista agora. E pessoas que simplesmente queriam viver a experiência de assistir a um grande musical.

Essa mistura talvez seja uma das maiores forças do teatro. ,No mesmo lugar, diferentes gerações se encontram. E durante algumas horas compartilham a mesma emoção.

Uma despedida que não parece fim

Ao final da temporada, fica a impressão de que São Luís não recebeu apenas um espetáculo. Recebeu uma história.mRecebeu uma artista. Recebeu uma equipe inteira de profissionais.

Recebeu música. Recebeu formação.  E recebeu a oportunidade de olhar para a própria cultura a partir da trajetória de uma mulher que nunca abriu mão de suas raízes.

Fafá de Belém construiu uma carreira de cinco décadas sem deixar de carregar consigo o lugar de onde veio.

Talvez seja justamente por isso que sua história encontre eco tão facilmente em outras cidades do Norte e do Nordeste.

Porque existe algo universal em quem não esquece suas origens. Depois de duas semanas de apresentações, aplausos e encontros, “Fafá de Belém, o Musical” encerra sua passagem por São Luís.

As estruturas do palco serão desmontadas. Os figurinos voltarão para as malas. A equipe seguirá viagem.  As luzes do Arthur Azevedo voltarão a receber outras histórias. Mas aquilo que realmente importa permanece. Permanece a música. Permanece a memória. Permanece o aprendizado deixado pelas oficinas.  Permanecem os profissionais que tiveram a oportunidade de aprender.

Permanecem os espectadores que saíram do teatro levando consigo uma emoção. E permanece a certeza de que a cultura também se constrói assim: de cidade em cidade, de palco em palco, de história em história.

São Luís foi uma dessas paradas.  E, por duas semanas, a cidade teve a oportunidade de ouvir, sentir e celebrar a história de uma mulher que fez da própria voz uma das mais reconhecidas expressões da música brasileira.

No palco, Fafá de Belém. Na plateia, São Luís. E entre os dois, aquilo que só a arte consegue fazer: transformar uma história pessoal em memória coletiva.