O Maranhense|Noticias de São Luís e do Maranhão

Últimas Noticias

Biofábrica maranhense aposta na proteína de insetos e conquista mercado nacional com produção sustentável

Uma oportunidade pode surgir dos lugares mais inesperados. No caso do empreendedor Armando Pacheco, ela veio da televisão. Há cerca de quatro anos, ao assistir a uma reportagem sobre a produção de insetos em diferentes países, ele teve contato com um setor ainda pouco conhecido no Brasil, mas que já despertava o interesse de pesquisadores e investidores ao redor do mundo.

O que mais chamou sua atenção foi a fala de um especialista holandês, que apontava o Nordeste brasileiro como uma das regiões mais favoráveis do planeta para a criação de insetos, graças às condições climáticas estáveis durante todo o ano. A observação despertou a curiosidade de Armando e o levou a mergulhar em pesquisas sobre o tema. O que começou como um interesse pessoal logo revelou um potencial de negócio inovador, capaz de unir tecnologia, sustentabilidade e geração de renda em uma atividade praticamente inexistente no Maranhão.

“Quando ouvi que o Nordeste tinha o melhor clima do mundo para produzir insetos, aquilo ficou na minha cabeça. Sempre gostei do agronegócio e comecei a pesquisar mais sobre o assunto. Comprei algumas amostras, trouxe para São Luís e passei a estudar e aprender sobre a criação desses insetos”, relembra Armando.

A curiosidade inicial rapidamente deu lugar a uma pesquisa de mercado que revelou uma oportunidade promissora: não havia produtores em escala empresarial no Maranhão e praticamente nenhum empreendimento estruturado no Norte e Nordeste. Foi então que o empreendedor decidiu transformar a ideia em negócio, iniciando a criação dos primeiros insetos em um pequeno quarto de sua residência. 

O que começou de forma experimental ganhou tração e, com o suporte estratégico do Sebrae para estruturar e profissionalizar o negócio, transformou-se na Biofábrica São Luís, hoje referência nacional na produção de tenébrios e exemplo de inovação aplicada à bioeconomia e à sustentabilidade.

Inovação com propósito sustentável

Quase quatro anos depois da mudança para um galpão próprio, a empresa alcançou uma produção de cerca de 1,5 tonelada por mês e se consolidou como a maior produtora nacional de tenébrio molitor. Os insetos são comercializados para criadores de aves, répteis e animais silvestres, laboratórios de pesquisa, zoológicos e empresas ligadas ao manejo integrado de pragas agrícolas em diversas regiões do país.

“Hoje enviamos nossos produtos para estados de Norte a Sul do Brasil. Temos clientes no Acre, em Foz do Iguaçu e em vários outros mercados. Isso mostra que existe uma demanda crescente por essa proteína e que o Maranhão tem condições de atender parte desse mercado”, destaca Armando.

Mas o empreendedor acredita que o maior potencial da Biofábrica está justamente naquilo que vai além da proteína. Segundo ele, os insetos representam uma alternativa sustentável para o aproveitamento de resíduos orgânicos e para a produção de insumos de alto valor agregado.

Na prática, quase tudo é aproveitado. Além da proteína utilizada na alimentação animal, a criação gera óleo rico em ômegas 3, 6 e 9, fertilizantes orgânicos naturais e quitina, substância presente no exoesqueleto dos insetos e que vem sendo estudada por universidades e centros de pesquisa devido às suas aplicações na agricultura, nutrição e biotecnologia. “É um modelo que praticamente não gera rejeitos. Tudo o que o inseto produz pode ser aproveitado economicamente. Isso faz com que a atividade esteja totalmente alinhada aos princípios da economia circular”, explica.

Outro diferencial está na sustentabilidade do sistema produtivo. Enquanto a produção convencional de proteína animal demanda grandes áreas, elevado consumo de água e significativa emissão de gases de efeito estufa, os insetos exigem estruturas compactas e poucos recursos naturais.

Em um único galpão, a capacidade produtiva pode chegar a dezenas de toneladas por ano. Além disso, os insetos conseguem transformar resíduos agrícolas, como cascas e folhas de mandioca, fibras de babaçu e outros subprodutos do campo, em proteína e fertilizantes orgânicos. “Quando comecei a estudar o setor, percebi que não estávamos falando simplesmente em criar insetos. Estávamos falando de uma nova forma de produzir alimentos, reaproveitar resíduos e gerar oportunidades econômicas com baixo impacto ambiental”, afirma.

A empresa também trabalha com pesquisas envolvendo a mosca-soldado-negra (Black Soldier Fly), espécie capaz de degradar rapidamente resíduos orgânicos e transformá-los em biomassa proteica e fertilizantes naturais.

Segundo Armando, a proposta vai muito além do negócio. “Nós queremos mostrar que é possível gerar renda, reduzir impactos ambientais e aproveitar resíduos que normalmente seriam descartados. É um modelo produtivo que contribui diretamente para a sustentabilidade”, destaca.

Sebrae impulsiona nova fase do empreendimento

A trajetória de crescimento da Biofábrica ganhou um importante reforço com o apoio do Sebrae Maranhão. Por meio do Sebraetec, ALI Rural e ALI Produtividade a empresa teve acesso a consultorias especializadas que contribuíram para a estruturação da área de processamento dos insetos e para a obtenção do registro junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), etapa fundamental para a comercialização dos produtos processados como ingredientes para ração animal.

Com a regularização concluída, a biofábrica inicia agora uma nova fase de expansão, focada no desenvolvimento de produtos desidratados, criação de marcas próprias e ampliação da capacidade produtiva. “Esse apoio foi fundamental para chegarmos até aqui. Conseguimos estruturar nossa área de processamento, atender às exigências regulatórias e nos preparar para acessar mercados ainda maiores”, afirma Armando.

Além do Sebrae, a empresa também foi contemplada em edital de fomento da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema), recurso que possibilitou a implantação da unidade de processamento.

Mercado em expansão

O crescimento da demanda confirma o potencial do segmento. Atualmente, fabricantes de rações de diversas regiões do país procuram a empresa em busca de fornecimento de proteína de inseto para aves, peixes ornamentais, répteis e outros animais.

Segundo Armando, o desafio agora é aumentar a escala produtiva para atender esse mercado. “Recebemos consultas semanalmente de empresas interessadas em comprar uma ou duas toneladas por mês. Existe demanda, mas precisamos investir em tecnologia e automação para ampliar nossa capacidade de produção e competir com os produtos importados”, explica.

A empresa já participa de editais de inovação e busca parcerias para desenvolver equipamentos que automatizem etapas da produção, reduzindo custos e aumentando a competitividade.

Referência nacional

Para o empreendedor, o potencial do Maranhão vai muito além da sua própria empresa. Ele acredita que o estado reúne condições estratégicas para se tornar um polo nacional de produção de proteína de insetos, aproveitando o clima favorável, a disponibilidade de resíduos agroindustriais e a proximidade logística com mercados internacionais.

“Quando ouvi aquele pesquisador falar sobre o potencial do Nordeste, imaginei exatamente isso: uma cadeia produtiva capaz de gerar renda para pequenos produtores, transformar resíduos em riqueza e posicionar o Maranhão como referência nesse mercado. É esse futuro que buscamos construir todos os dias”, reflete.

De acordo com a analista técnica do Sebrae Maranhão, Regina Vieira, a trajetória da Biofábrica São Luís representa o perfil de empreendimento que o Sebrae busca estimular no estado: negócios inovadores, sustentáveis e capazes de transformar conhecimento em oportunidades econômicas. 

“A Biofábrica mostra como a inovação pode nascer da observação, da curiosidade e da disposição para transformar uma ideia em realidade. A Biofábrica reúne elementos que consideramos estratégicos para o desenvolvimento do Maranhão, como sustentabilidade, bioeconomia, pesquisa aplicada e geração de valor a partir dos recursos disponíveis no território”, finaliza.