São Luís do Maranhão sedia exposição de videomapping em 2026, com artistas da região; confira os detalhes
Do interior de Coroatá à Cidade dos Azulejos, a 1ª edição da Mostra de Imagem em Movimento – MAPA reúne cinco artistas maranhenses ao redor da memória coletiva e ferroviária, que atravessa a Estrada de Ferro Carajás (EFC).
A cidade de São Luís do Maranhão, conhecida como a ‘Atenas Brasileira’, sediará a 1ª edição da ‘Mostra de Imagem em Movimento – MAPA’ em 2026! A capital maranhense, que abriga o traçado ferroviário da ‘Estrada de Ferro Carajás (EFC)’ à noroeste do estado, será palco de um encontro de leituras diversas, fotografias e memórias coletivas à ‘céu aberto’, contidas em uma megaexposição de videomapping.
Projetando a memória ferroviária de 27 comunidades que atravessam a EFC, em 2025 foram selecionados cinco artistas do Maranhão para revelar, através das fotografias, pinturas digitais, colagens e videoartes, o campo da arte contemporânea como um pilar inédito de atuação na região. Entre as personalidades criativas da mostra MAPA, foram selecionados: Acaique, Dinho Araújo, Inke, Ramusyo Brasil e Silvana Mendes.
Os processos criativos de cada artista enriquecem as perspectivas e abordagens de cada localidade. Enquanto Acaique traça um paralelo entre os trilhos da Estrada de Ferro Carajás com o imaginário ferroviário de Coroatá (interior do Maranhão); Inke estabelece um diálogo da própria capital São Luís, entre vivências e criação, com a história de passageiros que atravessam 892 km de extensão em direção à capital maranhense.
“Sou da região de Cocais, eu nasci e cresci em Coroatá. Essa é uma cidade que é dividida pela linha de trem. Eu era fascinada, quando criança, em ficar sentada perto, no mato, observando os homens que trabalhavam dentro desse trem de carga. Eu via eles saindo, descendo, carregando coisas super pesadas e voltando. E eles pareciam não ter nenhum tipo de vaidade. Eu ficava comovida pela natureza real das coisas”, revela Acaique.
A escritora e artista visual, que traz um diálogo com a comunidade LGBTQIAPN+, revela que a experiência à frente do MAPA está sendo tomada por sentimentos, através de histórias reais possibilitadas através da mostra. “Durante o processo de viagem, conheci Maria do Rosário, que é uma senhora que é dona de um terreiro de umbanda, que faz os vestidos e costura para os festejos. Também conheci Marinelji, que é uma moça que mora lá em Parauapebas, numa comunidade que fica próxima à linha de ferro de Carajás, que faz costura. Ela costura peças para crianças, estampadas com princesas e ursinhos. Eu fiquei encantada por essas pessoas”, conta.
Aprendendo sobre territórios e ‘histórias de vida’ ao redor da EFC, Inke também retrata às experiências à bordo do trem, desta vez, sob a perspectiva da diáspora. “Você tem uma população majoritariamente negra, majoritariamente desassistida em muitos aspectos, e que depende desse meio de transporte que, inclusive, é extremamente útil, por ser acessível e de baixo custo para as pessoas. Então facilita muito o deslocamento das pessoas em relação a pegar um ônibus na rodoviária ou pegar uma van. A viagem é muito tranquila, passa por lugares muito bonitos. Isso dá um acesso também a essas elas” elucida.
Trabalhando com graffiti na região desde 2003, Inke tem o desafio de transpor sua arte e às experiências ao longo de um trimestre de produção, para conectar públicos distintos na exposição em São Luís. Em diálogo com a investigação sobre memória e presença na região, a mostra ainda destaca as inquietações de Ramusyo Brasil; artista interdisciplinar, professor e pesquisador em pós-doutorado no Maranhão.
“A minha criação, as minhas inquietações, elas sempre giram em torno de alguma dimensão política da vida, de diferentes maneiras. A partir de uma obra de arte, de um filme ensaio, e mesmo como parte de experiências vividas. Assim, a memória no meu trabalho, ela está sempre no meio do caminho, entre a minha memória e a memória coletiva, a memória daqueles com os quais eu me relaciono. Nessa memória meio comum, como diria o Waly Salomão: ‘essa ilha de edição’; na qual a gente traz alguma coisa nossa e leva alguma coisa dos outros também”, retrata.
Traçando esse passado e presente das comunidades ao redor da Estrada de Ferro Carajás (EFC), as narrativas se ressignificam também a partir de ‘contranarrativas’, expostas pelo trabalho da artista visual maranhense, Silvana Mendes. “A maneira que a memória se transforma em arte no meu trabalho é crucial e essencial, na verdade. Então, um povo sem memória é, tecnicamente falando, um povo sem identidade. Se você tira a identidade de um povo, você transforma ele em qualquer coisa que você quiser. Quando o trabalho é pautado dentro desse lugar, ele é importante nessa manutenção, nesse resgate e nessa pontuação onde a memória é uma construção coletiva e pessoal essencial para a manutenção e criação da nossa identidade”, afirma.
Sendo esse fio condutor que atravessa gerações de maranhenses, a memória da região também é um terreno fértil para a criação de Dinho Araújo. O antropólogo, artista e curador maranhense, revisita tradições populares como o bumba-meu-boi e associa elementos folclóricos e o paisagismo para criar um MAPA poético em torno do movimento. Nesse cenário, o artista convida o público a perceber conexões entre territórios e a diversidade biológica, cultural e espiritual do Maranhão.
“Minha perspectiva para esse projeto é apresentar uma mirada sobre a história que não se configura apenas como uma história humana, mas que tenta burlar essa narrativa única do antropoceno. A presença das espécies, as espécies de árvores, as espécies de animais, aparece no trabalho tanto como um registro desse bioma amazônico, dessas paisagens, distintos ecossistemas entrecortados pela passagem da estrada de ferro. E, por outro, para uma dimensão da nossa espiritualidade que nos aproxima também dessa natureza da qual a humanidade, essa humanidade que se quer universal, busca se apartar”, conta.
Juntos, esses artistas se reúnem a outros cinco selecionados do Pará, a fim de transformar lembranças, relatos e vivências em obras que dialoguem com o público. Ao lado de Bárbara Savannah, Ícaro Matos, Juruna, Leonardo Venturieri e Rafa Cardozo, o time de dez artistas do MAPA expõe suas obras nos territórios do Maranhão, Pará e posteriormente em Brasília.
A previsão é que as exibições do MAPA tenham início em abril, com o “Vagão Cultural – Trem Vale”. Na sequência, as capitais São Luís (MA) e Belém (PA) recebem o festival da Mostra MAPA, em maio; finalizando o calendário com a exposição em formato de ‘galeria de arte’, em Brasília, ainda em junho de 2026. Para mais informações e acesso às entrevistas, o MAPA disponibilizará uma revista digital com o panorama geral das produções feitas no último semestre. O periódico e os vídeos com trechos das entrevistas com os artistas também estarão disponíveis através da bio do Instagram do MAPA (@mostramapa).
A Mostra de Imagem em Movimento – MAPA é uma realização da OPACCA Produção de Imagem, com apoio da Vale, por meio de Recursos para Preservação da Memória Ferroviária (RPMF), sob regulação da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).
