O que o seu xixi pode revelar sobre a sua saúde
Cor, cheiro e espuma dão pistas, mas é o exame que ajuda a identificar alterações
Você costuma olhar para o vaso sanitário depois de fazer xixi? Embora possa parecer um detalhe sem importância, observar a urina oferece algumas pistas sobre o funcionamento do organismo. Uma coloração mais concentrada, um cheiro diferente ou o aparecimento de espuma, por exemplo, podem ter explicações simples. Quando essas mudanças persistem, porém, exames ajudam a descobrir o que está acontecendo.
O urologista José Ribamar Calixto, do Hospital São Domingos, explica que uma das primeiras características que podem ser percebidas no dia a dia é a concentração da urina. Em geral, uma urina muito amarela e concentrada, especialmente no fim do dia, pode estar relacionada à baixa ingestão de líquidos.
“A urina muito concentrada não é necessariamente sinal de doença. Na maioria das vezes, é porque a pessoa ingeriu pouca água durante o dia”, explica o médico. Isso pode ficar mais evidente à noite ou durante a madrugada, depois de várias horas com pouca ingestão de líquidos. O cheiro também pode mudar quando a urina está mais concentrada e ficar mais intenso.
Outro aspecto que costuma preocupar é a presença de espuma no vaso. Calixto explica que ela pode aparecer por diferentes motivos e nem sempre representa um problema de saúde. A própria força do jato urinário, especialmente quando a bexiga está muito cheia, ou produtos de limpeza presentes no vaso podem favorecer sua formação.
Por outro lado, a presença de proteínas na urina, que pode estar associada a alterações renais e outras condições, é detectada por exames laboratoriais e costuma causar espuma. Quando ela aparece repetidamente, portanto, é preciso procurar avaliação médica para identificar se há necessidade de investigação.
Antes de observar o que mais pode estar diferente, vale entender qual é o aspecto esperado da urina. “A urina normal deve ser clara e límpida. Não deve ser aquela urina amarela, muito concentrada, com cheiro forte, que permanece deixando o banheiro com mau cheiro mesmo depois da descarga”, explica Calixto. Quando fica turva, por exemplo, isso pode estar relacionado à presença de células, cristais, muco ou bactérias. Se a alteração vier acompanhada de sintomas como ardência, vontade frequente ou urgente de urinar e dor, uma das possibilidades a ser investigada é a infecção urinária. A aparência, sozinha, porém, não é suficiente para confirmar o diagnóstico.
A cor também nem sempre aponta para uma doença. Alguns alimentos, vitaminas e medicamentos conseguem deixar a urina com tonalidades diferentes temporariamente. Já uma urina persistentemente muito escura, especialmente com aspecto semelhante a chá ou Coca-Cola, pode estar relacionada a alterações que vão além da hidratação, incluindo problemas hepáticos, musculares ou do próprio sistema urinário. Nesses casos, principalmente quando a mudança persiste ou aparece acompanhada de outros sintomas, é necessária avaliação médica para identificar a causa.
E não é apenas a aparência que pode mudar. A quantidade de urina e o número de idas ao banheiro também fornecem informações importantes. “Considerando uma ingestão de aproximadamente dois litros de líquidos por dia, é razoável urinar em torno de três a quatro vezes durante o dia”, analise o médico. Nesse contexto, ir ao banheiro mais ou menos vezes do que o habitual pode ser consequência de algo simples, como mudanças na ingestão de líquidos, temperatura ambiente ou uso de determinados medicamentos, mas também pode ocorrer em condições como diabetes e alterações renais. Mais uma vez, o que importa é observar mudanças persistentes em relação ao padrão habitual da pessoa.
EXAMES
Se aquilo que enxergamos no vaso oferece algumas pistas, o exame de urina amplia bastante as informações disponíveis. Entre os parâmetros analisados estão densidade, pH e presença de substâncias e células em quantidades que podem indicar alterações no organismo.
Um exame simples pode identificar, por exemplo, glicose, proteínas, sangue e leucócitos. Glicose na urina pode pode ocorrer em pessoas com diabetes e também estar relacionada ao uso de determinados medicamentos. Já a presença de sangue sempre merece atenção e pode ter diferentes causas. “Se você tem sangue na urina, pode ser por causa de uma pedra, por uma infecção, talvez até por um tumor do sistema urinário”, exemplifica o urologista. A origem precisa ser investigada de acordo com os demais resultados, sintomas e histórico do paciente.
Até mesmo achados frequentemente associados a uma doença precisam ser interpretados dentro do contexto. É o caso do aumento de leucócitos, células de defesa do organismo que podem aparecer no exame de urina. Encontrá-los em maior quantidade não permite, sozinho, concluir que exista uma infecção urinária. Dependendo dos sintomas e dos demais resultados, o médico pode solicitar uma urocultura para verificar a presença de bactérias e identificar o microrganismo envolvido. “Esse leucócito não quer dizer que seja infecção urinária. Você tem que fazer uma cultura para saber se há bactéria na urina”, explica Calixto.
Além do exame simples, existem avaliações específicas, como aquelas feitas com urina coletada durante 24 horas, que podem medir a eliminação de determinadas substâncias e auxiliar na avaliação da função dos rins. A indicação depende do que se pretende investigar e dos demais achados clínicos.
Por isso, alterações persistentes na urina ou acompanhadas de sintomas precisam ser avaliadas dentro do conjunto de informações do paciente. “A urina, que é o produto que o rim filtrou, nos dá muita informação”, resume Calixto.
