FIEMA e CIEMA discutem impactos da guerra entre EUA e Irã
Conflito pressiona setores como o energético e petroquímico e amplia espaço para maior produção de petróleo e gás no Brasil, incluindo o Maranhão
SÃO LUÍS – A intensificação do conflito entre Estados Unidos e Irã tem provocado forte instabilidade nos mercados globais de energia e fertilizantes. O tema esteve no centro do debate promovido pelo Conselho Temático de Assuntos Legislativos (CAL), da Federação das Indústrias do Estado do Maranhão (FIEMA), que reuniu especialistas nesta terça-feira (14/04) para analisar impactos e caminhos possíveis para o Brasil diante desse novo cenário internacional.
Cláudio Azevedo, presidente do Conselho Temático de Assuntos Legislativos (CAL), presidente do CIEMA e vice-presidente executivo da FIEMA, justificou o convite aos dois especialistas: Allan Kardec Duailibe, presidente da Gasmar, e Ronaldo Carmona, professor de Geopolítica da Escola Superior de Guerra. “Não poderíamos deixar de discutir no âmbito da Federação e do CIEMA essa nossa geopolítica criada pelo conflito no Oriente Médio, especialmente no que se refere à questão energética. Qual a nova conjuntura que teremos como consequência dessa guerra?”, questionou Cláudio.
Segundo os palestrantes, a guerra ultrapassa a dimensão militar e se manifesta como um choque geopolítico com efeitos diretos sobre rotas estratégicas, como o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do comércio mundial de petróleo e gás. Qualquer interrupção nessa região tende a elevar os preços internacionais dos combustíveis e a pressionar cadeias produtivas dependentes de energia e insumos importados, com reflexos imediatos na inflação.
O professor de Geopolítica da Escola Superior de Guerra, Ronaldo Carmona destacou que o conflito se insere em um contexto mais amplo de reorganização do sistema internacional, marcado pela disputa por hegemonia e por recursos estratégicos. Ele alertou para os riscos de desabastecimento de energia e de fertilizantes, essenciais para o agronegócio, e para o impacto macroeconômico que pode atingir países importadores. Ao mesmo tempo, apontou que crises dessa natureza abrem janelas estratégicas para nações com grande disponibilidade de recursos naturais e matriz energética diversificada, como o Brasil.
Nesse cenário, Carmona avaliou que o país tem a possibilidade de avançar na autonomia energética, reduzir vulnerabilidades externas e retomar uma agenda de planejamento de longo prazo. A exploração da Margem Equatorial surge como um dos eixos centrais dessa estratégia. Com potencial expressivo de óleo e gás, a região pode contribuir para a segurança energética nacional, gerar investimentos, empregos e receitas, além de impulsionar o desenvolvimento regional, com destaque para o Maranhão, que abriga duas das cinco bacias da Margem Equatorial.
Já Allan Kardec Duailibe, presidente da Gasmar, concentrou sua análise nos efeitos concretos e duradouros da guerra sobre o cotidiano da economia brasileira, sobretudo pelo papel do Oriente Médio na produção de petróleo e gás. Ele destacou dois vetores de efeito: o energético, com aumento imediato nos preços de gasolina, diesel e gás, e o petroquímico, cujo colapso afeta uma vasta cadeia de produtos do dia a dia e, principalmente, a produção de fertilizantes, pressionando ainda mais os custos do agronegócio e dos alimentos. Allan Kardec alertou que a reconstrução de refinarias destruídas durante o conflito é um processo longo, da ordem de quatro a cinco anos, o que antecipa um horizonte de inflação persistente para esses setores.
Ao mesmo tempo, ele apontou que o Brasil sai em posição relativamente favorável, por sua autossuficiência em petróleo e por ter uma matriz de biocombustíveis diversificada (biodiesel de sebo e soja, etanol de cana e milho). Para ele, a crise reforça a necessidade de avançar no desenvolvimento da Margem Equatorial e diversificar mercados e fontes. um debate que, segundo o presidente da Gasmar, não pode mais ser adiado.
Para o Maranhão, os especialistas apontaram um conjunto de oportunidades específicas. A posição geográfica, a infraestrutura portuária, a presença de bacias sedimentares promissoras e o papel logístico do estado no Norte e Nordeste colocam o território em condição privilegiada para participar da nova configuração do setor energético. A eventual ampliação da produção de óleo e gás tende a gerar efeitos multiplicadores sobre a indústria, os serviços, a arrecadação e a formação de mão de obra especializada.
