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Enxaqueca afeta mais de 30 milhões de brasileiros e alimentação pode ajudar no controle das crises

Subtítulo: Doença atinge cerca de 15% da população e provoca impactos nos estudos, trabalho e qualidade de vida. 

Julia Menezes, de 28 anos, conhece essa dor desde a adolescência. Estudante de Engenharia, ela convive desde os 12 anos com crises de enxaqueca com aura, tipo caracterizado por sintomas neurológicos que antecedem a dor intensa, como pontos luminosos na visão, formigamentos e dificuldade de concentração. Ao longo dos anos, a rotina de Julia tem sido marcada por episódios incapacitantes, que muitas vezes a obrigaram a interromper estudos e outros compromissos do dia a dia.

“Tem dias em que a dor toma conta de tudo. A luz incomoda, o barulho irrita e qualquer atividade vira um esforço enorme”, relata. As crises se intensificaram principalmente durante o período do vestibular e da faculdade, em meio ao estresse, noites mal dormidas e alimentação desregulada. Julia conta que já precisou abandonar provas no meio, faltar aulas e passar horas isolada em quartos escuros tentando aliviar os sintomas. “Hoje eu consigo identificar alguns gatilhos. As crises acontecem principalmente quando fico muito tempo sem comer ou exagero no café. Aprendi que alimentação e rotina fazem muita diferença”, afirma.

A história de Júlia se aproxima da realidade de milhões de brasileiros. As dores de cabeça frequentes e as crises de enxaqueca afetam diretamente a qualidade de vida, comprometendo estudos, produtividade no trabalho, sono e saúde emocional. As estimativas são de que mais de 30 milhões de brasileiros convivem com a doença, considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) uma das condições neurológicas mais incapacitantes.

A enxaqueca acomete cerca de 15% da população brasileira e atinge três vezes mais mulheres do que homens, especialmente entre os 30 e 50 anos, justamente a fase mais produtiva da vida. Dados apontam ainda que cerca de 90% dos pacientes relatam prejuízos nos estudos, carreira profissional ou vida pessoal por conta das crises. Apesar disso, o diagnóstico correto ainda pode levar anos, dificultando o acesso ao tratamento adequado.

Embora diversos fatores estejam ligados às crises, a alimentação aparece como uma importante aliada tanto na prevenção quanto no controle dos sintomas. De acordo com a nutricionista e professora da Estácio, Darah Marques, alguns alimentos podem ajudar a amenizar as dores quando inseridos em uma rotina alimentar equilibrada.

“Frutas, verduras, legumes e alimentos ricos em magnésio costumam ajudar, porque esse mineral participa do relaxamento muscular e da função neurológica”, explica a especialista. Entre os alimentos recomendados estão banana, abacate, aveia, castanhas e sementes. Ela também destaca a importância do consumo de fontes de ômega-3, como sardinha, salmão, chia e linhaça. “Esses alimentos possuem ação anti-inflamatória e podem contribuir para a saúde cerebral”, ressalta.

Outro ponto considerado essencial é manter horários regulares para as refeições. Segundo a nutricionista, ficar longos períodos sem comer pode favorecer o surgimento das crises em pessoas predispostas. Vitaminas do complexo B e antioxidantes também ajudam a reduzir o estresse oxidativo, frequentemente associado à enxaqueca.

Por outro lado, alguns alimentos podem atuar como gatilhos e agravar os sintomas. “Entre os mais comuns estão bebidas alcoólicas, principalmente vinho tinto, alimentos ultraprocessados, embutidos como salsicha, presunto e salame, além de produtos ricos em glutamato monossódico, adoçantes artificiais e excesso de cafeína”, afirma Darah Marques.

Chocolate, queijos mais curados e alimentos ricos em conservantes também podem desencadear crises em algumas pessoas. A especialista reforça, no entanto, que não existe uma lista universal de alimentos proibidos e que cada organismo reage de forma diferente. “O ideal é avaliar cada paciente de forma individualizada e, se possível, manter um diário alimentar para identificar padrões”, orienta.

A hidratação também merece atenção. Segundo Darah Marques, a desidratação está entre as causas mais frequentes das dores de cabeça. “Muitas pessoas passam o dia ingerindo pouca água e acabam apresentando sintomas como fadiga, irritabilidade e cefaleia”, explica.

O consumo excessivo de café e açúcar também pode contribuir para o problema. “Embora a cafeína possa aliviar a dor em alguns momentos, o consumo exagerado ou a retirada abrupta podem desencadear crises”, alerta. Além disso, alimentos ultraprocessados favorecem processos inflamatórios e oscilações rápidas da glicemia, fatores relacionados ao surgimento das dores.

Para a nutricionista, manter uma alimentação equilibrada pode trazer impactos na frequência e intensidade das crises. “Quando a pessoa mantém bons hábitos alimentares, horários regulares para as refeições, hidratação adequada e consumo reduzido de ultraprocessados, há uma melhora importante na saúde como um todo, inclusive na frequência e intensidade das dores de cabeça”, afirma.

Ela acrescenta que a alimentação adequada também influencia diretamente nos fatores ligados à enxaqueca, como sono, estresse e saúde intestinal. “A Nutrição atua como uma grande aliada na prevenção, ajudando cada paciente a identificar seus gatilhos e construir uma rotina alimentar mais saudável e sustentável”, conclui.

Especialistas alertam que dores de cabeça frequentes e intensas devem ser investigadas por um médico neurologista. O acompanhamento multidisciplinar, aliado a mudanças nos hábitos alimentares e na rotina, pode fazer diferença no controle da doença e na qualidade de vida dos pacientes.