Com salto de quase 27%, ecossistema de startups chega a novo patamar no país
O número de startups no Brasil cresceu 26,7% entre 2024 e 2025, passando de 18.056 para 22.869 empresas, segundo dados do Observatório Sebrae Startups. A projeção é que o país ultrapasse 25 mil startups ativas até o fim de 2026. O crescimento, porém, ocorre em um ambiente mais exigente, no qual investidores estão mais seletivos e as empresas precisam demonstrar capacidade de gerar receita e controlar despesas para sustentar a operação.
O cenário de investimentos ajuda a explicar essa mudança. Segundo levantamento da KPMG, os aportes de capital de risco no Brasil passaram de US$ 1,8 bilhão em 2024 para mais de US$ 3 bilhões em 2025, mas o mercado continua distante dos volumes registrados durante o período de maior euforia das startups. O dinheiro não desapareceu, mas passou a ser direcionado com mais cautela para empresas capazes de apresentar resultados, perspectivas de crescimento e maior controle sobre a operação.
Essa mudança colocou a gestão financeira no centro da rotina das empresas. Para negócios que trabalham com assinaturas, uma plataforma de cobrança para SaaS (software acessado pela nuvem mediante assinatura) pode automatizar pagamentos recorrentes e acompanhamento de assinaturas. A preocupação é transformar a venda em dinheiro efetivamente recebido e reduzir perdas provocadas por falhas de pagamento, atrasos ou processos que ainda dependem de tarefas manuais.
O dinheiro pode escapar depois da venda
Durante a fase de expansão acelerada do mercado de tecnologia, captar recursos e aumentar rapidamente a base de clientes eram prioridades para muitas startups. Com o dinheiro mais caro e os investidores mais criteriosos, a lógica mudou. Uma empresa pode ter um produto validado e conquistar novos contratos, mas ainda enfrentar dificuldades se não souber quanto custa vender, quanto tempo leva para receber e quanto da receita permanece depois das taxas e despesas.
André Cruz, CEO da Digital Manager Guru, aponta justamente essa distância entre o crescimento comercial e a estrutura financeira como um dos problemas recorrentes. Para ele, fundadores não podem concentrar toda a atenção no produto e nas vendas enquanto mantêm a área financeira apoiada em planilhas, processos manuais e ferramentas que não conversam entre si. “A maior armadilha de uma startup em tração é focar 100% no produto e deixar a infraestrutura de receita sustentada por planilhas, processos manuais e um conjunto de ferramentas desconectadas”, afirma.
Segundo André, o primeiro efeito aparece na produtividade. Uma startup que presta serviços corporativos, por exemplo, pode gastar horas emitindo faturas, conferindo extratos e cobrando clientes individualmente. O problema não está apenas no tempo perdido pela equipe. A falta de acompanhamento organizado pode atrasar pagamentos e aumentar a inadimplência. O especialista também chama atenção para as taxas cobradas por plataformas de pagamento, que, quando aplicadas sobre cada transação, podem reduzir a margem conforme o faturamento cresce.
Cobrança recorrente exige outra estrutura
Nas empresas que vendem software por assinatura, a cobrança tem uma particularidade: a receita depende de pagamentos que se repetem todos os meses. Uma falha no cartão não significa necessariamente que o cliente decidiu cancelar o serviço, mas pode interromper a entrada de dinheiro. Sem mecanismos de tentativa automática e acompanhamento das assinaturas, esse tipo de perda pode se repetir silenciosamente.
André avalia que esse controle deixou de ser um diferencial e passou a fazer parte da estrutura básica de uma operação SaaS. A maturidade financeira, segundo ele, passa pela capacidade de recuperar automaticamente pagamentos que falharam e acompanhar indicadores de receita sem depender de tarefas manuais. Na prática, uma cobrança automatizada permite que a equipe financeira concentre esforços em situações que realmente exigem intervenção, enquanto pagamentos recorrentes seguem regras previamente configuradas.
O mesmo princípio vale para startups que atuam no mercado corporativo, embora a dinâmica seja diferente. Muitas dessas empresas trabalham com consultoria, diagnósticos e projetos especializados para outras organizações, em contratos que podem durar meses e envolver diferentes etapas de entrega. Como essas operações seguem uma relação business to business – ou de empresa para empresa -, uma plataforma de cobrança B2B para consultorias pode centralizar a emissão de faturas e boletos e organizar os recebimentos de contratos recorrentes, reduzindo a necessidade de controles espalhados por planilhas e sistemas diferentes.
A nova régua para crescer
“O modelo de ‘crescimento a qualquer custo’ acabou. Hoje, a sobrevivência exige eficiência de capital e controle absoluto sobre a previsibilidade do caixa”, afirma André Cruz. Para o especialista, isso muda a forma como uma startup precisa acompanhar o próprio desempenho. Não basta observar faturamento e número de clientes. É preciso monitorar também o custo de aquisição, o valor gerado por cada consumidor, a inadimplência, as taxas de pagamento e a margem que efetivamente permanece com a empresa.
André também defende que as startups tenham maior controle sobre os próprios dados e sobre a infraestrutura de pagamentos. “O fundador precisa ter controle dos seus dados, liberdade para escolher seus processadores de pagamento e uma operação rodando no piloto automático com custo fixo”, afirma. Na avaliação dele, esse controle permite identificar quanto custa receber, quais taxas incidem sobre cada operação e onde estão ocorrendo as perdas, evitando que o faturamento cresça enquanto uma parcela da receita é consumida por processos ineficientes.
O avanço do ecossistema mostra que novas empresas continuam surgindo no país. As 22.869 startups identificadas em 2025 representam um salto de 26,7% em um ano, e a projeção de superar 25 mil em 2026 aponta para uma base ainda maior. O desafio para essas empresas, em um mercado de capital mais seletivo, é fazer com que o crescimento comercial venha acompanhado de uma operação capaz de sustentar as próprias contas.
Nesse cenário, cobrar bem deixa de ser apenas uma tarefa administrativa. Para startups, SaaS significa proteger a receita recorrente e reduzir perdas provocadas por falhas de pagamento. Para empresas de serviços B2B, significa organizar contratos, faturas e recebimentos. A diferença entre vender e receber, que muitas vezes fica escondida no crescimento acelerado, passa a ocupar um espaço maior na estratégia de sobrevivência dessas empresas.
