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Com juros altos, consumidor troca estética por eficiência na obra

Com a taxa Selic ainda em patamar elevado — atualmente em 14,5% ao ano — e o crédito imobiliário mais caro, consumidores passaram a fazer escolhas menos aspiracionais e mais pragmáticas na hora de construir ou reformar. 

Em vez de investir em acabamentos exclusivamente estéticos, cresce a busca por materiais duráveis, de baixa manutenção e maior vida útil. Uma tentativa de evitar custos extras em um cenário de juros elevados e menor capacidade de financiamento.

A construção civil é um dos setores mais sensíveis ao custo do crédito, já que depende fortemente de financiamentos de longo prazo, tanto para famílias quanto para incorporadoras. Em períodos de juros elevados, o encarecimento do financiamento reduz a capacidade de compra, desacelera obras e pressiona o orçamento das reformas. 

No mercado imobiliário, bancos vêm operando com taxas de financiamento habitacional na faixa de aproximadamente 10,5% a 12,5% ao ano, dependendo do perfil do cliente e da modalidade de crédito, o que aumenta o custo total dos projetos e leva famílias a rever prioridades.

O efeito aparece diretamente nas decisões de consumo: materiais duráveis e de menor manutenção passam a ganhar espaço sobre escolhas orientadas exclusivamente pela estética.

O avanço dos custos da construção também ajuda a explicar a mudança de comportamento. No primeiro trimestre, o índice do preço médio dos insumos da construção atingiu o maior patamar desde o segundo trimestre de 2022, chegando a 68,4 pontos. O movimento reflete pressões sobre matérias-primas, logística e custos industriais, impactando diretamente o orçamento das obras.

Setor monta alternativa diante do desafio monetário

Diante do cenário, enxugar custos se tornou prioridade, especialmente na fase de acabamento, que costuma representar entre 15% e 30% do valor total da obra. Com o orçamento mais apertado, materiais de alto padrão frequentemente cedem espaço a alternativas mais acessíveis, capazes de reproduzir efeitos visuais semelhantes com menor impacto financeiro, como cerâmicas nacionais, superfícies industrializadas e pedras de maior disponibilidade no mercado.

Em acabamentos, essa lógica se traduz na preferência por materiais mais resistentes ao desgaste, fáceis de limpar e menos suscetíveis à troca precoce. A conta é simples: gastar um pouco mais agora para reduzir gastos com manutenção ou reformas no futuro. 

Em muitos casos, a verba originalmente destinada a revestimentos premium acaba sendo redirecionada para acomodar custos financeiros da obra ou eventuais estouros no orçamento.

Segundo Rodrigo Gante, especialista em marketing e posicionamento de marcas para os setores de arquitetura e design da Homeney Acabamentos, a lógica do custo-benefício passou a influenciar até itens antes vistos como secundários, como os rodapés.

“Materiais de menor custo inicial, como madeira ou poliestireno, podem exigir substituição e manutenção mais frequentes. Já o alumínio, embora tenha um investimento inicial um pouco maior, tende a oferecer maior durabilidade e menor necessidade de troca ao longo do tempo. Em um cenário de orçamento apertado, o consumidor passou a olhar mais para o custo total de uso do que apenas para o preço de compra”, afirma.

Obra por etapas ganha força com orçamento apertado

Com o capital de giro mais restrito e menor espaço para parcelamentos longos, muitas famílias têm abandonado a estratégia de comprar todos os materiais de uma só vez para garantir descontos. As compras passam a acompanhar o ritmo da obra, etapa por etapa, o que aumenta a exposição à inflação do setor e às oscilações de preços.

Apesar do cenário desafiador, a expectativa do setor para a segunda metade do ano é de melhora gradual. A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) projeta crescimento de 2% da construção civil em 2026, impulsionado pela perspectiva de redução gradual dos juros, ampliação do crédito habitacional, investimentos em infraestrutura e programas de habitação. Ainda assim, a entidade avalia que o custo do financiamento deve continuar influenciando o comportamento do consumidor, mantendo a busca por soluções mais eficientes e economicamente sustentáveis nas obras e reformas.