Mais de 50 mil candidatos declaram déficit de atenção no Enem
Condição é a mais frequente entre os pedidos de atendimento diferenciado para o exame
Exatos 51.724 candidatos informaram déficit de atenção ao solicitar atendimento especializado para realizar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2026. A informação é do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pela realização das provas. O número representa 37,39% das 138.329 solicitações de atendimento especializado recebidas pelo instituto e é a condição mais frequente entre os pedidos. As provas do Enem serão realizadas nos dias 8 e 15 de novembro.
Manter a concentração durante horas, interpretar questões extensas, organizar as respostas e administrar o tempo disponível nos dois dias de prova já é desafiador para qualquer candidato. Para pessoas com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), o esforço pode ser bem maior, mesmo quando o estudante domina o conteúdo cobrado na prova.
A psicóloga Hellen Rose Maria Salazar, mestre e doutoranda em Neurologia, especialista em Neurociência Clínica e professora do Instituto de Educação Médica (IDOMED), explica que isso acontece porque condições como o TDAH comprometem as funções executivas do organismo, responsáveis por habilidades como planejamento, organização, controle dos impulsos e execução de tarefas.
“A administração do tempo e a capacidade de permanecer concentrado na tarefa geralmente são as maiores queixas de quem sofre com essa condição. Pessoas com TDAH que apresentam maior inquietude também podem responder de forma mais impulsiva, analisando menos os detalhes de uma questão. Assim, acabam cometendo erros em conteúdos que até conhecem, mas deixam passar alguma informação importante porque realizaram a tarefa com muita velocidade”, aponta.
Embora seja frequentemente associado à distração, o TDAH envolve dificuldades que vão além da capacidade de prestar atenção. Segundo Hellen, uma pessoa com o transtorno pode permanecer concentrada durante muito tempo em uma atividade de seu interesse e, ao mesmo tempo, ter grande dificuldade para realizar tarefas repetitivas ou pouco estimulantes.
“O desafio não é só a atenção, mas a capacidade de se autorregular e de se manter motivado e focado para uma ação. Uma pessoa com TDAH pode prestar atenção naquilo de que gosta muito, mas ter grande dificuldade naquilo que não desperta seu interesse, precisando fazer um esforço muito grande para permanecer envolvida”, afirma.
Durante o Enem, essas dificuldades podem aparecer ainda na leitura de textos longos, na interpretação de enunciados e na organização da sequência de questões. A psicóloga explica que parte dessas dificuldades está relacionada à memória de trabalho, que é a capacidade de manter e utilizar informações por um curto período. “Quando várias informações precisam ser processadas ao mesmo tempo, a pessoa com TDAH pode ter mais dificuldade para organizar o raciocínio”, afirma.
TEMPO EXTRA
Para atender candidatos que enfrentam essas dificuldades, o Inep prevê condições especiais de aplicação do Enem. Entre os recursos disponíveis está a concessão de 60 minutos adicionais em cada dia de prova, desde que o participante tenha solicitado o benefício durante a inscrição e apresentado documentação que comprove a necessidade.
No Enem 2026, o prazo regular para solicitar atendimento especializado ocorreu entre 25 de maio e 12 de junho. O atendimento não é concedido automaticamente a todas as pessoas com diagnóstico de TDAH. Cada solicitação passa por análise, e os candidatos que tiveram o pedido aprovado podem consultar as informações na Página do Participante, no endereço enem.inep.gov.br/participante. Os dados do Inep mostram que o tempo adicional foi o recurso de acessibilidade mais solicitado no Enem 2026, com 77.956 registros.
Hellen explica que essas adaptações são importantes porque o TDAH apresenta manifestações diferentes em cada pessoa. Enquanto alguns estudantes têm maior dificuldade para filtrar ruídos e outros estímulos do ambiente, por exemplo, outros podem precisar de mais tempo para interpretar informações e conferir respostas.
“Quem tem um grau alto de TDAH costuma apresentar mais dificuldade para administrar o tempo. Se essa pessoa precisa realizar uma tarefa no mesmo ritmo de outras pessoas, pode cometer mais erros e ter muito mais dificuldade. Por isso, precisa fazer as atividades mais devagar, o que implica maior necessidade de tempo para executá-las”, esclarece.
A psicóloga acrescenta que dividir tarefas extensas em etapas menores, com pausas entre elas, também pode favorecer a concentração. A estratégia ajuda especialmente pessoas que apresentam dificuldades para manter a atenção de maneira contínua.
RETA FINAL
Com a proximidade do Enem, a organização da rotina de estudos é um dos principais desafios para candidatos com TDAH. Segundo Hellen, estabelecer pequenas metas diárias e utilizar recursos externos de planejamento pode ajudar a compensar dificuldades de organização e administração do tempo.
Entre as ferramentas possíveis estão agendas, alarmes, assistentes virtuais e aplicativos que auxiliam na divisão das tarefas. Recursos de inteligência artificial também podem ser utilizados para organizar cronogramas de estudo e distribuir os conteúdos de acordo com o tempo disponível.
“É importante que esses estudantes tenham suporte externo para organizar e planejar a rotina de estudos, seja de outra pessoa ou de uma tecnologia. Estudar com pequenas metas diárias costuma ajudar, assim como utilizar técnicas que dividem o tempo de estudo em blocos. Evitar deixar o celular sobre a mesa também ajuda muito a reduzir as distrações”, orienta.
Hellen ressalta ainda que o acompanhamento do TDAH pode envolver tratamento medicamentoso, intervenções terapêuticas e adaptações na rotina. Os medicamentos podem ajudar a regular a atenção, mas não substituem o desenvolvimento de estratégias para lidar com as dificuldades de planejamento e organização.
“Os medicamentos estimulam os circuitos atencionais, deixando a pessoa mais alerta de forma estável ao longo do tempo. Mas eles não criam repertório de resposta. A aprendizagem de estratégias para contornar as dificuldades vem das terapias e das adaptações na rotina”, conclui.
PREPARAÇÃO GRATUITA
Para colocar essas estratégias em prática, os estudantes também podem recorrer a plataformas gratuitas de preparação para o Enem. Embora não sejam ferramentas desenvolvidas especificamente para pessoas com TDAH, esses recursos podem auxiliar na organização dos estudos, especialmente quando utilizados em conjunto com estratégias de planejamento, divisão de tarefas e acompanhamento.
Uma das opções é o Enem Action, que reúne planos de estudo, provas de edições anteriores, minissimulados, apostilas e mais de 200 videoaulas. Os recursos permitem organizar a revisão por conteúdos, praticar a resolução de questões e acompanhar a preparação para o exame. O acesso é feito pelo site enemaction.com.br.
A plataforma também oferece o Corrige EA, ferramenta que utiliza inteligência artificial para avaliar redações. O estudante pode praticar com os cinco últimos temas do Enem e receber uma nota estimada, de zero a mil, acompanhada de uma análise dos pontos fortes e dos aspectos que precisam ser aprimorados. O recurso está disponível em corrigea.enemaction.com.br.
