Meu filho está acima do peso. O que devo fazer?
Novas recomendações para o tratamento da obesidade infantil reforçam acompanhamento médico e participação da família
Quando uma criança começa a ganhar peso acima do esperado, reduzir a quantidade de comida, restringir determinados alimentos ou colocá-lo uma dieta parece a solução mais lógica. Mas, na prática, não é bem assim: como o organismo infantil ainda está em desenvolvimento, impor restrições alimentares sem orientação profissional podem comprometer a ingestão de nutrientes necessários ao crescimento.
O tratamento da obesidade infantil deve considerar a idade, a saúde e a rotina da criança. É o que estabelece a Organização Mundial da Saúde (OMS), que este mês publicou novas diretrizes para o tratamento dessa condição em crianças e adolescentes. “A obesidade é uma doença crônica, influenciada por fatores biológicos, sociais e ambientais, e que precisa de tratamento individualizado, considerando o crescimento e o desenvolvimento infantil. O ideal é que os pais mantenham o acompanhamento regular do seu filho com o médico pediatra”, orienta o pediatra do Hospital São Domingos, Leonardo da Vince Martins.
DIAGNÓSTICO
O peso na balança, isoladamente, não determina se uma criança tem obesidade. O diagnóstico considera peso, altura e índice de massa corporal (IMC), interpretados conforme a idade e o sexo, por meio de curvas de crescimento. O médico também pode avaliar pressão arterial, hábitos alimentares, sono, atividade física e possíveis problemas associados, como hipertensão, diabetes tipo 2, alterações do colesterol, problemas no fígado e dificuldades emocionais. Cansaço excessivo, indisposição e dificuldade para participar de brincadeiras que exigem movimento também merecem atenção.
As novas recomendações reforçam que dietas muito restritivas não devem ser adotadas por conta própria. “Na infância, o objetivo do tratamento precisa respeitar as necessidades nutricionais e o ritmo de crescimento, com mudanças sustentáveis na alimentação, no sono e na atividade física. Além do crescimento, devemos lembrar que a criança está em desenvolvimento”, explica Leonardo, ao destacar a importância do equilíbrio de vitaminas, minerais e calorias.
No Maranhão, dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), do Ministério da Saúde, dentificaram obesidade em 6,94% das crianças menores de cinco anos acompanhadas. O mesmo documento mostrou que 74% das crianças de dois a quatro anos e 77% daquelas entre cinco e nove anos com registros de consumo alimentar haviam consumido alimentos ultraprocessados, como refrigerantes, salgadinhos e biscoitos recheados.
Por isso, a orientação médica inclui ampliar a presença de alimentos in natura ou minimamente processados, como frutas, verduras, feijão e preparações caseiras, e reduzir o consumo de ultraprocessados. Brincadeiras ativas, atividades físicas adequadas à idade e menos tempo sedentário também fazem parte do cuidado.
O pediatra destaca, ainda, que o tratamento não deve se transformar em uma cobrança dirigida apenas à criança. “A criança reflete os hábitos de sua família. Portanto, é preciso construir uma rotina que envolva a todos, tanto no que se refere à alimentação quanto à prática de atividades físicas”, afirma. Comentários depreciativos sobre o corpo, comparações e cobranças relacionadas ao peso devem ser evitados, porque podem prejudicar a autoestima e a relação com a alimentação.
SAIBA MAIS
As novas diretrizes divulgadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) tem o objetivo de combater o crescimento da doença no mundo: em 2024, cerca de 170 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos viviam com obesidade, o equivalente a 8% dessa população, contra 2% em 1990.
As recomendações reforçam a importância do acompanhamento médico, da alimentação equilibrada, da atividade física e do apoio familiar. Também abordam o uso de medicamentos para emagrecimento, incluindo as chamadas canetas emagrecedoras, em situações específicas na adolescência e sob supervisão médica. Para crianças menores de 10 anos, esses medicamentos não são recomendados.
