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Como dois professores maranhenses estão dando mais sentido às aulas de Língua Portuguesa e Matemática

No Dia dos Professores, experiências da Grande São Luís mostram como leitura, escrita e experimentação aproximam os estudantes do conhecimento

Último relatório do PISA mostrou a importância de se trabalhar essas disciplinas básicas, cujo desempenho tem caído até em países desenvolvidos

Uma pirâmide, um prisma e um pouco de líquido colorido ajudam uma turma de Paço do Lumiar, na Grande São Luís (MA), a compreender na prática uma fórmula matemática. Já em uma escola no bairro Turu, na capital maranhense, outro percurso começa com um livro escolhido na biblioteca e termina com o nome do estudante entre os autores de uma coletânea literária.

Em tempos em que é um desafio atrair a atenção dos jovens hiperconectados, as experiências fazem parte do trabalho de dois professores maranhenses que procuram despertar o interesse dos estudantes pela Matemática e pela Língua Portuguesa. Neste Dia dos Professores, celebrado em 15 de outubro, suas histórias mostram como esse envolvimento é construído: com propostas que dão espaço à interpretação dos alunos, recursos escolhidos para cada conteúdo e acompanhamento contínuo.

Melhorar a aprendizagem nestas disciplinas base é um desafio internacional. Os últimos resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) mostram que, na média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o desempenho caiu 28 pontos em leitura e 22 em Matemática entre 2015 e 2025. O recuo mostra o desafio também para sistemas educacionais com mais recursos, como Alemanha e Finlândia. No Brasil, os resultados permaneceram estatisticamente estáveis no período, mas em patamar baixo, reforçando a necessidade de fortalecer a compreensão de textos e o raciocínio matemático.

“As formas de ensinar mudaram. Projetos que envolvem os estudantes na construção do conhecimento ajudam a despertar o interesse e a dar sentido à aprendizagem. Em uma rotina marcada pela tecnologia e pelas redes sociais, esse trabalho exige criatividade e uma relação próxima entre professores e alunos. A inteligência artificial pode colaborar com o educador oferecendo ideias e ajudando a adaptar atividades à realidade de cada turma, mas jamais irá substituir o trabalho docente”, explica o professor Marco Saliba, do Grupo Eureka, parceiro da rede estadual do Maranhão na implementação de recursos para a recomposição das aprendizagens.

Alunos protagonistas
No Centro de Ensino Paulo Freire, a professora Antocléia Santos queria aproximar os estudantes dos livros. Formada em Filosofia e Sociologia, decidiu unir sua iniciativa ao trabalho das professoras de Língua Portuguesa em um projeto de leitura e escrita. Ao longo de seus 21 anos na área escolar, ela observou uma série de dificuldades nesse campo, mas afirma: “os obstáculos não definem a capacidade dos jovens. O que faltava era encontrar uma proposta que os convidasse a participar. Nossa ideia foi pedir que cada estudante escolhesse uma obra da biblioteca, lesse e produzisse uma narrativa a partir de sua interpretação”.

O convite passou pelas salas dos dois turnos da escola, que atende alunos do Ensino Médio. O trabalho reuniu diferentes conhecimentos: Antocléia preparou uma estrutura para ajudar o grupo a organizar as narrativas, enquanto as professoras de Língua Portuguesa contribuíram com a revisão ortográfica, a coesão e a coerência dos textos. Cada estudante escreveu a partir do livro escolhido e de sua própria leitura. A parceria também envolveu uma professora de Arte, que indicou quatro alunos ligados ao grafite para criar as ilustrações que dialogam com as histórias.

Dessa construção conjunta nasceu a coletânea “Recontos Literários: Jovens que Escrevem, Mundos que Nascem”, com 22 autores e quatro artistas.

“Quando iniciamos o projeto, a intenção era aproximar os estudantes dos livros. Mas, no percurso, aconteceu algo ainda maior. Eles deixaram de se perceber apenas como leitores e passaram a se reconhecer como autores”, conta.

Antocléia compartilha essa disposição para incorporar novas ferramentas. Adepta da inteligência artificial, que utiliza em suas pesquisas, ela concluiu recentemente um MBA na área e defende: “O desafio da educação contemporânea é justamente ensinar nossos alunos a utilizar esses dispositivos, sem abrir mão da autoria, da reflexão e do pensamento crítico”.

Tudo é matemática
Já no Centro de Ensino Professor Robson Campos Martins, no Maiobão, em Paço do Lumiar, o professor de Matemática Vanderlândio Pontes encontra possibilidades de aprendizagem em objetos que poderiam passar despercebidos. Uma embalagem, um recipiente ou uma caixa podem ajudar a discutir formas, medidas, áreas e volumes. O próprio espaço da escola oferece um rico material de investigação: desde o piso, às janelas, ou às paredes.

Hoje, ele desenvolve o trabalho com seis turmas do 3º ano do Ensino Médio. Seu acervo inclui jogos, sólidos geométricos e recursos produzidos por ele, levados para a escola conforme o conteúdo da aula. A proposta é fazer o laboratório circular pelas salas.

“O que procuro mostrar aos estudantes é que Matemática não é apenas um conjunto de fórmulas que precisam ser memorizadas. Quando eles podem tocar, experimentar, investigar, levantar hipóteses e visualizar aquilo que estão estudando, a relação com a disciplina muda”, afirma o professor.

Essa busca começou por volta de 2003, quando Vanderlândio trabalhava na rede municipal de São Luís. Diante de dificuldades para prender a atenção da turma, levou para a aula um objeto inusitado: uma Torre de Hanói, jogo em que os participantes movimentam discos entre hastes seguindo determinadas regras. Enquanto um estudante tentava resolver o desafio, os demais acompanhavam. Tal curiosidade indicou um caminho que ele aprofundaria, anos depois, no mestrado.

Ao estudar o uso de materiais concretos no ensino de Geometria, Vanderlândio passou a planejar essas atividades de maneira mais sistemática. Hoje, procura relacionar cada recurso ao conceito que pretende ensinar. Em grupos, os estudantes jogam, montam sólidos, identificam faces, vértices e arestas e discutem o que observaram.

Sua formação inicial em Engenharia contribui muito para esse olhar. Depois de 28 anos de docência, ele mantém a busca por maneiras de aproximar o conhecimento matemático das situações em que os alunos consigam experimentar.

Os recursos digitais também encontram lugar nesse trabalho. A lanterna do celular, por exemplo, permite projetar a sombra de um poliedro construído pela turma. O estudante segura o objeto, muda sua posição e observa como a projeção se transforma. O aparelho pode ainda apoiar pesquisas e o registro das experiências.

Programa Ensino Médio de Verdade
A Secretaria de Estado da Educação do Maranhão (Seduc-MA) lançou em junho deste ano o programa Ensino Médio de Verdade desenvolvido com apoio técnico do Grupo Eureka. O objetivo é colaborar com os professores para que desenvolvam práticas escolares a fim de reduzir as desigualdades de aprendizagem entre os alunos. Após a realização de encontros pedagógicos regionais, cerca de 530 escolas da capital e do interior recebem, até 29 de outubro, visitas técnicas voltadas à implementação de estratégias para fortalecer o ensino e promover o uso da inteligência artificial com intencionalidade pedagógica. A iniciativa chegará a mais de 200 municípios, alcançando 95% do território maranhense.