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Quando a “porta” do coração fica estreita: especialista alerta para a gravidade da doença da válvula aórtica

Doença se torna mais frequente com o avanço da idade; se não tratada, taxa de mortalidade pode chegar a 50%

Cansaço para realizar atividades que antes eram rotineiras, falta de ar ou tontura podem facilmente ser atribuídos ao avanço da idade. Depois dos 70 anos, porém, esses sintomas também podem ser sinônimo de um problema grave no coração que precisa ser investigado: a doença da válvula aórtica, caracterizada pela insuficiência ou estreitamento progressivo da válvula que controla a saída do sangue do coração para o restante do organismo.

Para entender o problema, primeiro é preciso saber onde essa válvula está. O coração possui quatro câmaras e é do ventrículo esquerdo que o sangue rico em oxigênio é bombeado para a aorta, a grande artéria responsável por distribuí-lo pelo corpo. Entre ventrículo e aorta, fica a válvula aórtica. “Ela controla a saída de sangue do coração para todos os órgãos e estruturas do corpo humano”, explica José de Ribamar Costa Junior, chefe do Serviço de Cardiologia do Hospital São Domingos.

Na doença da válvula aórtica, podem ocorrer dois tipos de alteração. Na insuficiência aórtica, ela deixa de fechar adequadamente e parte do sangue que deveria seguir adiante retorna para o coração. Na estenose aórtica, mais comum, acontece o contrário: a abertura vai ficando cada vez mais estreita, dificultando a passagem do sangue.

José de Ribamar compara a estenose aórtica a uma porta que, com o tempo, ficou difícil de abrir. “É como se fosse uma porta antiga, enferrujada, em que é preciso fazer muita força para conseguir passar”, explica. No coração, quem precisa fazer esse esforço extra é o ventrículo esquerdo, que passa a trabalhar mais para conseguir bombear o sangue através da válvula estreitada.

Problema é mais comum entre idosos

Uma das principais formas da estenose aórtica está associada à calcificação e ao enrijecimento progressivo da válvula ao longo da vida. “A válvula vai enrijecendo, a porta vai ficando mais ‘enferrujada’ e mais travada. A partir dos 70 anos, isso pode ocorrer de forma mais rápida e progressiva”, explica o cardiologista. 

A relação com a idade aparece também nos dados divulgados pelo Ministério da Saúde. Relatório da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) aponta estimativas de prevalência da estenose aórtica de 0,2% nas pessoas com até 64 anos, 1,3% entre 65 e 74 anos e 2,8% a partir dos 75 anos.

Conforme a válvula se estreita, o coração encontra maior resistência para enviar sangue ao organismo. É nesse momento que podem surgir sinais aparentemente pouco específicos. “O paciente começa a se queixar de fraqueza, tontura, falta de ar e pode até ter desmaio, que chamamos de síncope. Também pode ter angina, que é a dor no peito”, explica José de Ribamar.

O desafio é que justamente nessa faixa etária essas queixas podem ganhar outras explicações. “Os sintomas podem parecer labirintite, arritmia, ansiedade ou obstrução coronariana, quando o diagnóstico na verdade, pode ser de estenose aórtica”, alerta. Há ainda pacientes que permanecem sem sintomas durante parte da evolução da doença. Por isso, o acompanhamento cardiológico ganha importância especialmente à medida que a idade avança.  De acordo com o Ministério da Saúde, sem a intervenção indicada, a mortalidade é estimada em aproximadamente 50% dos pacientes nos primeiros dois anos após o aparecimento dos sintomas. 

TRATAMENTO

O tratamento da doença da válvula aórtica é cirúrgico e pode ser feito de duas formas. Uma delas é a cirurgia cardíaca convencional, que permite retirar a válvula comprometida e implantar uma prótese, que pode ser biológica ou mecânica. A escolha depende de fatores como idade, características clínicas e condições individuais do paciente.

Nas últimas décadas, porém, outra técnica passou a fazer parte das opções para determinados pacientes: o implante transcateter de válvula aórtica (TAVI, na sigla em inglês). Nesse procedimento, em vez da cirurgia cardíaca aberta convencional, uma nova válvula pode ser conduzida por um cateter, geralmente através da artéria femoral, até chegar ao coração.

“Levamos o sistema com a válvula montada, que passa a funcionar sobre a válvula antiga”, explica José de Ribamar. A técnica permite tratar pacientes selecionados sem a necessidade da abertura convencional do tórax, mas isso não significa que seja a opção adequada para todos.

No Brasil, a definição da estratégia leva em consideração as características do paciente, o risco da cirurgia convencional e critérios estabelecidos para cada modalidade. “Essa decisão é tomada por uma equipe”, ressalta o cardiologista. A avaliação pode envolver profissionais de diferentes especialidades, como cardiologistas, cirurgiões cardíacos, anestesistas, geriatras e especialistas em imagem, que analisam conjuntamente qual abordagem oferece a melhor relação entre riscos e benefícios.

O acompanhamento também é importante antes que a doença chegue a essa fase. A avaliação médica e exames cardiológicos permitem identificar alterações da válvula, determinar a gravidade da estenose antes do desenvolvimento da doença e acompanhar sua progressão. “É fundamental o acompanhamento com um especialista. É importante estar sempre alerta, passar regularmente pelo médico e fazer os exames necessários”, orienta José de Ribamar.