Maranhão conquista dois lugares no Prêmio TOP 100 de Artesanato
Renda de Bilro da Raposa e Cerâmica Vitrificada de São Luís estão entre os 100 melhores trabalhos do país na 6ª edição da premiação
O artesanato maranhense volta a ganhar destaque no Prêmio Sebrae Top 100 de Artesanato conquistando duas vagas no concurso – o mais cobiçado reconhecimento da área – com a tradicional Renda de Bilro da Raposa (da Associação das Rendeiras da Praia da Raposa), e a Cerâmica Vitrificada de São Luís, de José Carlos Martins.
Nesta 6ª edição, 51 artesãos e grupos do estado se inscreveram para concorrer ao reconhecimento nacional, que inclui duas das mais expressivas tradições artesanais do estado entre os 100 melhores trabalhos artesanais do país.
A participação maranhense também marca um momento especial da série histórica dessa premiação: na 2ª edição (2011/2012), foram selecionados Artcoop MA, de Barreirinhas; Associação Santa Maria, de Alcântara; Bilros de Ouro, de Paço do Lumiar; e Mulheres de Fibra, de São Luís. Na 3ª edição (2013/2014), o estado esteve representado por AASJR, de São José de Ribamar; Mulheres de Fibra e Mosaico das Artes, de São Luís; Associação Santa Maria, de Alcântara; Associação da Raposa, de Paço do Lumiar; e Associação Rio Grande, de São Luís. Já na 4ª edição (2015/2016), participaram Associação Buriti Arte/Mulheres de Fibra e Ateliê de Cerâmica Julieta Ferreira, ambos de São Luís.
Por trás da conquista deste ano, estão histórias diferentes, mas que têm em comum a força da tradição, a criatividade e a capacidade de transformar cultura em trabalho e renda. Para Darly Menezes, presidente da Associação das Rendeiras da Praia da Raposa, a renda de bilro não começou como negócio. Antes de se transformar em fonte de renda e representar o município em uma premiação nacional, era algo que já fazia parte da vida da artesã.
A técnica chegou até Darly como herança da família. Ela cresceu vendo a avó e a mãe produzirem as rendas e, mais tarde, passou a observar também as mulheres da associação. Foi acompanhando aquele movimento que o interesse despertou. Aprendeu a técnica, desenvolveu novas peças e passou a compartilhar o conhecimento em oficinas.
“Eu cresci vendo elas fazerem a renda de bilro. Minha avó fazia, minha mãe fazia, então eu sempre tive aquele contato com a renda. Quando eu comecei a acompanhar as mulheres da associação, aquilo despertou ainda mais o meu interesse. Foi quando eu aprendi a técnica, comecei a desenvolver minhas próprias peças e também passei a ensinar outras pessoas”, conta.
A tradição, que atravessa gerações na Raposa, também ganhou novos caminhos com o acompanhamento do Sebrae. Darly conta que as orientações ajudaram a associação a avançar não apenas na produção, mas também na gestão do trabalho. Precificação, organização, criação de novos produtos, acompanhamento do mercado e divulgação passaram a fazer parte da rotina.
“Com o Sebrae, a gente evoluiu muito. A gente aprendeu a se organizar melhor, a trabalhar a precificação, a criar novas peças e também a administrar a associação. Não é só a gente fazer a renda, mas é também saber gerir ela e estar acompanhando o mercado, buscando novas oportunidades e mostrando o nosso trabalho”, explica Darly.
Para ela, esse processo foi importante para que a tradição pudesse continuar viva sem ficar restrita às peças produzidas no passado. A associação mantém os modelos tradicionais, mas também cria produtos diferentes para alcançar novos consumidores e mercados.
“A gente evoluiu muito desde quando começou. As consultorias ajudaram a gente a continuar essa tradição, mas de uma forma que também acompanhasse os dias de hoje. A gente continua fazendo as peças tradicionais, mas também cria peças novas, porque precisa alcançar novos mercados e fazer com que a renda de bilro continue sendo valorizada”, destaca a artesã.
O reconhecimento nacional, por isso, representa uma confirmação de que um saber tradicional pode continuar encontrando espaço no presente. “É uma sensação indescritível, é muito, muito orgulho. A gente sabe que a concorrência foi grande, que tinham muitos artesãos participando, e conseguir colocar a Associação das Rendeiras da Praia da Raposa entre os 100 melhores artesanatos do Brasil é uma felicidade muito grande. Isso também dá mais vontade de continuar, de melhorar e de permanecer no TOP 100”, afirma Darly.
Um recomeço moldado no barro
Em São Luís, a história de José Carlos Martins também é marcada por reinvenção. Há mais de 35 anos trabalhando com cerâmica, o artesão conta que precisou recomeçar em determinado momento da vida e encontrou no artesanato uma forma de reconstruir o caminho profissional.
O que começou como uma atividade quase terapêutica foi ganhando estrutura e se transformou em negócio. Hoje,o ateliê reúne espaços para diferentes etapas da produção, como preparação do barro, desenho e pintura, além da área dos fornos elétricos.
“Eu tive que começar de novo e foi no artesanato que eu me encontrei. Para mim, o artesanato é uma terapia, mas também é uma fonte de renda, desde que você saiba administrar. Eu fui caminhando passo a passo, fui melhorando, e hoje já tenho uma equipe trabalhando comigo, com pessoas pela manhã e à tarde”, conta Martins.
O trabalho também é profundamente ligado ao Maranhão e encontra na cultura popular uma fonte constante de criação. “Eu fui aprendendo o artesanato como se fosse um presente que eu recebi e fui aperfeiçoando. Primeiro o desenho, depois as peças de cerâmica, os moldes, e hoje a gente trabalha também com a barbotina. E eu gosto muito de trazer as coisas do Maranhão para o meu trabalho, como o cazumbá, a máscara do fofão, os azulejos e o bumba meu boi”, prossegue explicando o artesão.
Hoje, a produção alcança diferentes públicos. Além dos turistas que procuram peças como lembrança do Maranhão, José Carlos também atende consumidores interessados em decoração e utilidades. Panelas, tigelas, pratos e personagens da cultura popular fazem parte do repertório do ateliê.
O reconhecimento no TOP 100, para ele, chega como resultado de um trabalho coletivo. José Carlos faz questão de dividir a conquista com as pessoas que participam diariamente da produção.
“Quando você fala assim: ‘o Martins ganhou o TOP 100’. Não, tudo bem, eu ganhei, mas se você olhar, tem uma equipe por trás desse prêmio. Tem muita gente trabalhando comigo, muita gente ajudando a fazer acontecer. Então esse prêmio é também o reconhecimento de todo esse trabalho que a gente vem fazendo e da busca constante por melhorar cada vez mais”, afirma José Carlos.
A expectativa é que a premiação amplie a visibilidade do trabalho e aproxime novos clientes, mas também desperte o interesse de pessoas que queiram aprender a técnica e seguir o mesmo caminho. “Eu quero que esse reconhecimento traga mais visibilidade para o nosso trabalho, que as pessoas tenham interesse em conhecer e comprar nossas peças, mas também que outras pessoas tenham vontade de aprender. Eu quero que outras pessoas também abram seus ateliês para poder trabalhar com a arte. A gente não é eterno, então precisa deixar esse conhecimento para outras pessoas”, reforça o artesão.
Da tradição ao mercado
As duas histórias mostram diferentes caminhos para um mesmo desafio: transformar o conhecimento artesanal em uma atividade capaz de se sustentar, alcançar novos públicos e continuar valorizando a identidade do território.
É nesse processo que entra o trabalho do Sebrae Maranhão. Para Flávia Nadler, gestora estadual de Turismo e Artesanato do Sebrae Maranhão, a presença dos artesãos maranhenses entre os vencedores coloca o estado em um ranking nacional de excelência e amplia as possibilidades de mercado para quem vive do artesanato.
“O Prêmio Sebrae TOP 100 de Artesanato é uma iniciativa do Sebrae em âmbito nacional, e ocorre agora na sua 6ª edição. Mais uma vez, nós temos artesãos maranhenses sendo reconhecidos. E isso é de grande valia, uma vez que a gente passa a figurar em um ranking de excelência do artesanato, um ranking nacional. Isso também incentiva, valoriza a nossa cultura, estimula a inovação e também traz oportunidades concretas de negócios”, ressalta a gestora.
Segundo Flávia Nadler, o apoio do Sebrae passa por diferentes etapas da atividade. “O Sebrae Maranhão apoia os artesãos por meio das nossas diversas soluções, que vão desde as orientações sobre como empreender, sobre como se formalizar, o aprimoramento de seus produtos e serviços, no que tange a layout, precificação, digitalização, como vender na internet, assim como também a parte de mercado, promoção e divulgação dos seus produtos.”, explica ela.
O reconhecimento também ajuda a dar visibilidade ao trabalho de quem mantém essas tradições vivas no Maranhão. Com o prêmio, o artesanato produzido no estado ganha espaço e chega a outros lugares do país, levando junto um pouco da cultura maranhense.
Para quem trabalha com o artesanato como ofício e como forma de preservar uma tradição, o reconhecimento tem um significado que vai além da premiação, como explica Rita de Cássia Duarte, rendeira da Associação das Rendeiras de Bilro de Raposa.
“É uma grande alegria, uma honra participar desse reconhecimento. Esse prêmio representa muito mais: é uma valorização do nosso trabalho, da nossa história, que é construída com amor e dedicação. Estar no Top 100 é sentir que vale a pena todo o esforço para manter a nossa cultura, essa arte que é o nosso trabalho”, celebra, feliz e realizada, a artesã Rita de Cássia
