Conheça o negócio maranhense que recria roupas e empodera mulheres 50+
Com apoio do Sebrae, a empreendedora Jacirene França transformou o upcycling em renda, impacto social e oportunidade para costureiras experientes em São Luís.
Antes de se tornar empreendedora, Jacirene França já havia construído uma trajetória profissional ligada à moda. Em 2012, enquanto trabalhava como consultora de uma instituição privada, começou a pensar em novas possibilidades para a carreira. Mãe de dois filhos, ela queria estar preparada para uma eventual mudança e decidiu construir um “plano B”.
Foi nesse período que voltou a estudar. Em 2014, ao participar do Inova Moda, projeto nacional desenvolvido em parceria com o Sebrae, passou a dedicar-se ao comportamento do consumidor, tendências, pesquisa de mercado e novas possibilidades para a cadeia da moda.
A relação com a moda, no entanto, vinha de muito antes. Jacirene cresceu vendo a mãe costurar e passou parte da infância e da adolescência usando roupas doadas. Anos depois, essas experiências encontrariam espaço em sua trajetória profissional.
“Trabalhar com moda, trabalhar com brechó tem a ver com a minha vida desde a minha infância, vendo minha mãe costurar”, conta.
O plano B virou uma nova carreira
Em 2015, Jacirene decidiu que queria empreender. A mudança foi planejada enquanto ainda trabalhava como consultora e, em 2018, ela começou a testar a ideia de um brechó no ambiente virtual. Depois de um ano de experiências, erros e acertos, deixou o emprego e passou a se dedicar integralmente ao negócio.
Uma das primeiras decisões foi procurar o Sebrae, como já havia planejado anos antes. A participação em projetos da instituição ajudou a ampliar a visão sobre gestão e empreendedorismo e a transformar a ideia em uma atividade profissional estruturada. Ainda em 2019, o brechó ganhou uma loja física.
A mudança trouxe novos desafios e, poucos meses depois, veio a pandemia. Com as portas fechadas, Jacirene precisou encontrar outras formas de continuar trabalhando.
A crise fez a moda circular sair do papel
As peças que estavam no acervo do brechó passaram a ser utilizadas como matéria-prima para novas criações. Roupas foram desmontadas, transformadas e ganharam outras funções. As sobras de tecidos também foram aproveitadas na produção de máscaras.
A necessidade também acelerou a entrada no ambiente online. Depois de participar de uma imersão com foco no digital, Jacirene começou a produzir vídeos, mostrar os processos de criação e apresentar o trabalho pelas redes sociais.
A estratégia abriu novas possibilidades para o negócio, que passou a fornecer para grandes empresas e clínicas. Com o aumento da demanda, contratou costureiras que trabalhavam de casa durante o período de restrições na pandemia. “Foi um ano de um faturamento que eu nunca imaginei ter”, lembra.
Da experiência nasce a Use +
A experiência acumulada com o brechó e com a moda circular abriu espaço para um novo projeto. Em 2024, Jacirene lançou a Use +, marca construída a partir de três conceitos: moda atemporal, inclusão e sustentabilidade.
A marca passou por uma pausa em 2025, mas foi retomada em 2026. A proposta é trabalhar com roupas de qualidade, pensadas para diferentes corpos e idades, e ampliar o uso de peças que já existem por meio do upcycling.
Na prática, roupas que poderiam ser descartadas passam por um processo de desconstrução e ganham uma nova função. A matéria-prima permanece, mas a peça recebe uma nova modelagem, um novo desenho e uma nova história. A proposta é que cerca de 70% do foco da Use + esteja relacionado ao reaproveitamento de peças.
“Essa peça que já existiu deixou de existir com aquela função, mas a matéria-prima permanece gerando uma nova possibilidade, uma nova vida, uma nova história”, explica.
Uma moda pensada para incluir
A Use + também nasceu com a intenção de criar oportunidades para mulheres que sabem costurar, mas muitas vezes não se reconhecem como empreendedoras. A ideia é trabalhar especialmente com mulheres a partir dos 50 anos que estão fora do mercado de trabalho e já possuem conhecimento em costura.
Para facilitar a produção, Jacirene desenvolveu um método que exige uma estrutura simples. Em alguns casos, uma única máquina de costura é suficiente. Quando necessário, a proposta também envolve capacitação.
Para ela, a inclusão significa mostrar que o conhecimento e os recursos que essas mulheres já possuem podem se transformar em fonte de renda e independência.
“Você não precisa estar numa condição perfeita. Você precisa iniciar do jeito que você pode. Porque primeiro você começa, depois você melhora”, afirma.
Hoje, Jacirene mantém o brechó e trabalha na expansão da Use +. Os dois negócios têm públicos diferentes, mas compartilham a ideia de colocar as pessoas no centro do trabalho.
Os planos também incluem um terceiro projeto: a criação de cursos digitais para mulheres que desejam empreender, mas enfrentam inseguranças ou dificuldades para dar o primeiro passo. O primeiro curso está previsto para setembro.
O que começou como um plano para construir uma alternativa profissional acabou se transformando em uma trajetória marcada por moda, criatividade, sustentabilidade e oportunidades para outras mulheres.
