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Tambor de Mina, religião nascida no Maranhão, inspira novo circuito cultural pela Amazônia

Uma das principais expressões culturais do Maranhão, o Tambor de Mina conduz um novo circuito de intercâmbio pela Amazônia. Lançado em agosto, o “TRAVESSIA – Tambor de Mina pelas Águas da Amazônia Legal” reúne terreiros, sacerdotes, tocadores, artistas e manifestações culturais do Maranhão, Pará e Amapá. A programação começa a circular em setembro pelos três estados.

Nascida no Maranhão a partir de matrizes religiosas africanas, a Mina reúne santos, voduns, orixás, caboclos e encantados. Ao circular pela Amazônia, a religião também estabeleceu diálogos com a pajelança e outras cosmologias presentes na região, construindo formas próprias de compreender e experimentar o sagrado.

O projeto parte dessa história para colocar o Tambor de Mina em contato com manifestações culturais negras dos três estados. No Maranhão, o encontro será com o Tambor de Crioula; no Amapá, com o Marabaixo; e, no Pará, com o Carimbó.

As manifestações não estarão apenas reunidas na programação. Em cada etapa, os tocadores da Mina participarão também dos toques da expressão cultural anfitriã, criando um intercâmbio entre diferentes heranças negras presentes na formação cultural da Amazônia.

“Em todos esses contextos, tanto na religiosidade do Tambor de Mina quanto no Carimbó, no Marabaixo e no Tambor de Crioula, existe o uso do tambor, mas não é somente o instrumento. Existe um contexto social. São manifestações praticadas historicamente e ainda hoje por pessoas majoritariamente pretas”, afirma Daniel ADR, idealizador do TRAVESSIA e sacerdote do Ilê Axé Akoro de Omilodé, em Belém.

“Mesmo que uma esteja mais ligada à liturgia religiosa e as outras à cultura popular, esses caminhos se encontram na ancestralidade e na importância dos povos negros e africanos para a sociedade que conhecemos hoje”, completa.

Contemplado pelo Programa Funarte de Difusão Nacional – Circuito Pixinguinha de Música, na modalidade Médio Circuito, o TRAVESSIA é realizado pelo Ilê Axé Ogum Sobô, de São Luís, e pelo Ilê Axé Akoro de Omilodé, de Belém, com produção da Araí Cultura.

Do Maranhão para outros territórios amazônicos

O Tambor de Mina tem no toque, no canto, na dança e na tradição oral formas fundamentais de transmissão de seus saberes. Essa dimensão religiosa e cultural orienta a programação do TRAVESSIA, que promove três etapas de intercâmbio presencial entre representantes do Maranhão, Pará e Amapá.

Cada cidade receberá uma oficina de toque de Tambor de Mina, uma oficina de culinária ancestral e uma conversa entre sacerdotes sobre tradição oral e continuidade dos saberes da religião. A agenda também inclui dois dias de toques, um dedicado a Orixás, Voduns e Gentis e outro voltado à encantaria.

O circuito se abre ainda às expressões culturais de cada estado, com Tambor de Crioula em São Luís, Marabaixo em Santana e Carimbó em Belém, além da apresentação de um grupo musical local em cada etapa.

No Maranhão, o projeto aproxima o Tambor de Mina do Tambor de Crioula, duas expressões marcadas pela presença do tambor e pela atuação histórica da população negra. O encontro também destaca o estado como território de origem de uma religião que estabeleceu vínculos e ganhou diferentes configurações em outros pontos da Amazônia.

Travessia entre terreiros

A circulação cria uma oportunidade de convivência entre comunidades religiosas que compartilham referências, práticas e vínculos, mas são separadas pelas distâncias, pelos custos e pelas limitações de deslocamento na região amazônica.

“Apesar de serem estados próximos, geograficamente eles nos tornam mais distantes. Fazer esse intercâmbio, essa aproximação, é fundamental para que haja diálogo entre esses territórios amazônicos”, afirma Daniel.

A relação entre Maranhão e Pará também atravessa a trajetória do idealizador. Paraense e sacerdote em Belém, Daniel é filho de santo de um sacerdote de São Luís. No projeto, as águas aparecem como imagem dos vínculos construídos pela fé entre os territórios.

“As águas não são os espaços que separam. Existe uma transição, uma travessia”, diz. “O projeto surge dessa conexão entre o meu pertencimento dentro do Tambor de Mina e a forma como consigo enxergar esses trajetos através das águas.”

Sobre o projeto

TRAVESSIA – Tambor de Mina pelas Águas da Amazônia Legal

Circulação: Maranhão, Pará e Amapá
Encontros culturais: Tambor de Mina e Tambor de Crioula, em São Luís; Tambor de Mina e Marabaixo, em Santana; Tambor de Mina e Carimbó, em Belém.
Programação: oficina de toque de Tambor de Mina, oficina de culinária ancestral, conversa com sacerdotes sobre tradição oral, toques para Orixás, Voduns e Gentis e para a encantaria, apresentações culturais e shows de grupos locais.
Realização: Ilê Axé Ogum Sobô e Ilê Axé Akoro de Omilodé
Produção: Araí Cultura

FOTOS: Acervo da Araí Cultura