Professores iniciam recomposição das aprendizagens no Maranhão
Nesta segunda-feira, encontro pedagógico do programa Ensino Médio de Verdade preparou docentes da rede estadual para aplicar estratégias de recomposição e iniciar acompanhamento nas escolas
A Secretaria de Estado da Educação do Maranhão (Seduc-MA) concluiu, nesta segunda-feira (17), em São Luís, a primeira etapa do programa “Ensino Médio de Verdade”, iniciativa voltada à recomposição das aprendizagens dos estudantes da rede pública, com apoio técnico do Grupo Eureka.
O encontro na capital reuniu professores de Língua Portuguesa e Matemática e encerrou o ciclo de formações realizado em 20 diferentes regiões do Maranhão, que alcançou mais de 5 mil profissionais. A partir de agora, os educadores começam a colocar em prática, nas escolas, as estratégias trabalhadas durante os encontros, com acompanhamento das equipes da Seduc.
Para a secretária de Estado da Educação, Jandira Dias, o programa reforça a construção de uma educação mais participativa, com professores e estudantes no centro das decisões. “A educação do Maranhão vive uma virada de chave, um novo momento em que o aluno é protagonista e senta na mesa. Ele diz o que sonha para sua educação no futuro, o que quer para a sua geração, o que busca encontrar na escola. E o professor também está sendo ouvido. Nós estamos construindo juntos”, declarou.
O superintendente da Rede de Ensino e da Aprendizagem da Seduc, Wellington Gouveia, destacou que a formação é apenas uma das etapas do trabalho que será desenvolvido junto aos professores. Segundo ele, o acompanhamento continuará após os encontros, por meio de uma aproximação das equipes com os profissionais nas próprias escolas. “Quem faz o filho do pedreiro virar doutor? Quem faz o filho da doméstica, da secretária do lar, do taxista, do desempregado virar dono do seu destino é o professor. Aqui nós temos um time de intelectuais que já fez uma vez e vai fazer de novo”, afirmou.
Wellington também destacou que os livros distribuídos não são empréstimos e não precisarão ser devolvidos ao final do ano, como ocorria tradicionalmente. A proposta é que alunos e professores tenham liberdade para escrever, fazer anotações e utilizar os materiais como ferramentas de aprendizagem.
Recompor para avançar
Na prática, recompor as aprendizagens significa identificar conhecimentos que não foram consolidados pelos estudantes e criar estratégias para preencher essas lacunas. Para o professor de Matemática Valderlândio Pontes, que participou da formação, o desafio se agravou após a pandemia e exige considerar diferentes fatores que interferem na aprendizagem, além de utilizar recursos variados para retomar conteúdos básicos. “É como se fosse uma parede e deixasse alguns tijolos faltando. Chega um momento em que, continuando a construir, ela vai cair. Então a gente tem que colocar esses tijolos”, exemplificou.
Segundo o professor, estudantes do Ensino Médio ainda podem apresentar dificuldades em conhecimentos de anos anteriores, o que torna necessário um trabalho baseado no diagnóstico de cada turma. “Recomposição é diferente de reforço e recuperação. É algo que ele não teve”, esclareceu.
O professor Marco Saliba, do Grupo Eureka, salientou que a aprendizagem precisa ser a prioridade das estratégias adotadas. Para ele, superar a ideia de fracasso na educação pública passa por criar condições para que o estudante perceba seu próprio avanço e encontre sentido no processo.
“A gente vem de uma luta muito grande para que a narrativa do fracasso, que permeia a educação pública brasileira, seja colocada de lado. O sucesso é a grande recompensa do ser humano. Quando a gente tem sucesso, a gente se empodera, a gente quer mais”, pontuou.
Saliba também destacou que livros, materiais digitais e inteligência artificial são ferramentas que precisam estar articuladas ao trabalho docente. “Agora existe uma prateleira com um monte de objetos físicos, objetos digitais, mas a única pessoa responsável por promover a aprendizagem é o professor. A educação nasce de vínculo, de afeto. Não adianta entregar todos os materiais se não trouxermos os professores para conversar. O educador precisa se apropriar de tudo isso e, com intencionalidade pedagógica, usar todas essas tecnologias e materiais.”
Saúde mental e aprendizagem
A programação em São Luís também abordou a saúde mental e o engajamento no ambiente escolar, em palestra ministrada pela filósofa e psicóloga Viviane Mosé. “A escola precisa ser um lugar de desenvolvimento humano para alunos e professores. Quando as pessoas se sentem acolhidas, aprendem e produzem mais. Precisamos entender que, hoje, o desenvolvimento intelectual e profissional depende do desenvolvimento humano”, afirmou.
Viviane defendeu que a escola seja um espaço que valorize as diferenças, acolha e promova relações mais saudáveis. Segundo ela, esse cuidado também contribui para os resultados educacionais. “Uma escola alegre, uma escola intensa, uma escola que acolhe, uma escola que valoriza as diferenças, uma escola que não exclui — e não é só não excluir alunos, é não excluir professores e todos os profissionais de educação – sem dúvida nenhuma tem excelentes resultados.”
