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Qual a relação entre a odontologia e o câncer de cabeça e pescoço?

Quando se fala em câncer, é comum que o oncologista seja o primeiro profissional lembrado. No entanto, a identificação de alguns tumores pode começar antes mesmo da chegada do paciente a uma equipe especializada. É o que pode acontecer com o câncer de cabeça e pescoço, especialmente quando a doença envolve a cavidade oral.

A relação com a odontologia está justamente no contato frequente do cirurgião-dentista com estruturas como língua, gengivas, bochechas, palato e assoalho da boca. Durante a consulta, o profissional pode observar alterações que não chamaram a atenção do paciente e, quando necessário, indicar uma investigação mais detalhada.

A importância desse acompanhamento pode ser dimensionada pelos números. Para cada ano do triênio de 2026 a 2028, o Instituto Nacional de Câncer (INCA), na publicação “Estimativa 2026: Incidência de Câncer no Brasil”, estima 17.190 novos casos de câncer da cavidade oral no país. Desse total, são esperados 12.260 casos em homens e 4.930 em mulheres.

Assim, reconhecer uma alteração ainda no início pode fazer diferença na condução do caso. O INCA também explica que o diagnóstico precoce procura identificar o câncer em estágio inicial a partir da análise de sinais e sintomas suspeitos.

O que é o câncer de cabeça e pescoço?

O câncer de cabeça e pescoço reúne diferentes tipos de tumores que podem se desenvolver em estruturas como cavidade oral, faringe, laringe, cavidade nasal, seios paranasais e glândulas salivares. Também podem surgir tumores na região da cabeça e do pescoço que exigem avaliação de outras especialidades, como os da tireoide. Por isso, o termo não representa uma única doença, mas um conjunto de cânceres que variam conforme a região afetada.

Na cavidade oral, os tumores podem atingir os lábios, a língua, as gengivas, as bochechas, o palato e o assoalho da boca. É justamente nessa região que a odontologia ganha relevância para a identificação de alterações suspeitas, já que o cirurgião-dentista examina essas estruturas durante as consultas de rotina.

Os fatores de risco também mudam de acordo com a localização do tumor. No câncer de boca, o INCA aponta o tabagismo e o consumo de bebidas alcoólicas entre os principais fatores associados à doença. A exposição à radiação solar está relacionada aos tumores de lábio, enquanto a infecção pelo HPV está associada a parte dos casos de câncer de orofaringe.

A prevenção, portanto, envolve diferentes cuidados. Evitar o tabaco, reduzir o consumo de bebidas alcoólicas, proteger os lábios da exposição solar e manter a vacinação contra o HPV em dia estão entre as medidas recomendadas. Ao mesmo tempo, reconhecer alterações persistentes permite que uma suspeita seja investigada antes que a doença avance.

Por que a odontologia tem papel na detecção precoce?

A consulta odontológica cria uma oportunidade de observar diretamente a cavidade oral. Durante o exame clínico, o cirurgião-dentista pode perceber mudanças de coloração, textura, formato ou presença de lesões nos tecidos. Isso é especialmente relevante porque algumas manifestações iniciais do câncer de boca podem não provocar dor ou outros sintomas intensos.

Mas o olhar do profissional não se limita às estruturas dentro da boca. Durante o atendimento, alguns sinais relatados pelo paciente ou percebidos no exame podem levantar suspeitas sobre tumores de outras regiões da cabeça e do pescoço. Rouquidão persistente, dificuldade ou dor para engolir, dor de garganta prolongada, sensação de algo preso na garganta e nódulos no pescoço, por exemplo, podem indicar a necessidade de uma investigação mais detalhada. Esses sinais não significam necessariamente câncer, mas sua persistência merece avaliação.

O próprio INCA mantém uma formação específica para cirurgiões-dentistas da atenção primária sobre diagnóstico precoce do câncer de boca. O curso, atualizado em 2024, aborda diagnóstico diferencial, lesões potencialmente malignas e neoplasias malignas da boca.

A formação também ajuda a explicar por que a odontologia ocupa um lugar importante nesse processo. Na faculdade de odontologia, o estudante entra em contato com o exame clínico da boca e aprende a reconhecer diferentes alterações dos tecidos. Depois da graduação, a atualização profissional continua sendo necessária para ampliar a capacidade de suspeição.

Nesse processo, a consulta pode funcionar como um primeiro ponto de atenção. Ao identificar uma alteração na boca, perceber um nódulo no pescoço ou ouvir um relato de sintomas persistentes, o cirurgião-dentista pode orientar o paciente a buscar avaliação especializada. A investigação pode envolver outros profissionais, exames complementares e, quando há suspeita de câncer de boca, biópsia.

Por isso, a atuação odontológica faz parte de uma rede de cuidados que envolve diferentes especialidades. O objetivo não é estabelecer sozinho o diagnóstico de todos os tumores de cabeça e pescoço, mas reconhecer sinais que merecem atenção e contribuir para que o paciente chegue ao profissional adequado no momento certo.

Sinais que podem ser identificados em consultas de rotina

Nem toda ferida, mancha ou alteração na boca está relacionada a um tumor. Existem diversas condições benignas que podem produzir manifestações semelhantes. Ainda assim, alguns sinais precisam de atenção quando persistem, principalmente porque o câncer de boca, cabeça e pescoço pode apresentar poucas manifestações nos estágios iniciais.

Entre os principais sinais que podem ser observados estão:

  • Feridas ou úlceras na boca ou nos lábios que não cicatrizam em até 15 dias;
  • Manchas vermelhas ou esbranquiçadas na língua, gengivas, palato ou bochechas;
  • Caroços nos lábios, na boca ou no pescoço;
  • Rouquidão persistente;
  • Dificuldade para mastigar, engolir ou falar;
  • Alterações na movimentação da língua ou assimetria facial.

A persistência é um dos pontos que ajudam a definir quando uma alteração deve ser investigada. O Ministério da Saúde orienta que feridas na boca que não cicatrizam em até 15 dias, assim como manchas e caroços, sejam avaliadas por um profissional de saúde.

Quando encontra uma lesão suspeita, o cirurgião-dentista pode realizar a avaliação clínica e encaminhar o paciente para a investigação indicada. No caso do câncer de boca, a confirmação diagnóstica é feita por meio de biópsia. Se o resultado confirmar a doença, o paciente deve ser encaminhado para tratamento especializado.

Por isso, manter consultas odontológicas de rotina ajuda a acompanhar mudanças que podem surgir ao longo do tempo. A atenção também deve partir do próprio paciente, que pode observar alterações persistentes durante a higiene bucal e procurar atendimento quando algo diferente aparecer.

O objetivo não é transformar qualquer alteração em motivo de preocupação: a proposta é evitar que sinais persistentes sejam ignorados. Com prevenção dos fatores de risco, acompanhamento odontológico e protocolos adequados diante de suspeitas, a odontologia pode contribuir para que o câncer de cabeça e pescoço seja identificado mais cedo.