Qual o sentido do trabalho para você?
O mundo do trabalho, hoje, é atravessado por um contexto de instabilidade, aceleração e exigências constantes de adaptação. A ideia de previsibilidade do século passado, de trajetórias lineares e de segurança a longo prazo, vem sendo progressivamente substituída por condições marcadas pela incerteza, pela multiplicidade de funções, pela pressão por desempenho contínuo, precarização pela perda de garantias trabalhistas, ou pela necessidade de tratar a carreira profissional como uma sequência não linear de vários projetos ao longo da vida laboral.
Diante disso, não é incomum que o trabalho deixe de ser apenas um campo de realização e passe também a ser fonte de esgotamento, confusão e desencontro. Muitas pessoas se percebem cansadas, desconectadas do que fazem, ou mesmo sem conseguir reconhecer sentido naquilo que sustentam cotidianamente, mesmo que não seja uma regra.
Neste cenário, mais do que nunca a temática da saúde mental vem ganhando foco social, seja pelos altos índices de adoecimento mental, diagnósticos e afastamentos do trabalho, como também por maior acesso à informação e o interesse pessoal para o autocuidado.
Se por um lado, no que tange ao ambiente, as empresas precisam se preocupar mais, inclusive agora com a obrigatoriedade de inclusão do mapeamento dos riscos psicossociais relacionados ao trabalho e da implementação de ações para mitigar esses riscos, respaldado pela nova NR-1 que entra em vigência no próximo dia 26 de maio; por outro, o indivíduo também precisa construir suas possibilidades de lidar com este campo no qual está inserido, de fazer suas escolhas e buscar transformações.
Por isso, o sujeito não pode ser compreendido de forma isolada, mas em constante relação. Isso significa que o sofrimento no trabalho não pode ser reduzido a uma suposta incapacidade individual de “dar conta”, mas precisa ser entendido na relação entre a pessoa, suas formas de ajustamento e as condições concretas que a atravessam.
Cuidar da própria carreira e de seu futuro pode ser um fator protetivo da saúde mental. Nessa direção, não se refere a atender indiscriminadamente às exigências externas, nem a uma busca incessante por produtividade ou sucesso. Trata-se, antes, de um movimento de aproximação: de reconhecer como se está, o que se sente, o que se sustenta, o que se repete e o que, muitas vezes, já não encontra mais lugar.
Implica desenvolver uma escuta mais sensível sobre si, sobre os próprios limites, desejos e modos de estar no trabalho. Implica também sustentar, quando possível, pequenas escolhas mais ajustadas, não como soluções definitivas, mas como movimentos possíveis dentro de um campo real, por vezes restritivo.
O apoio profissional especializado pode favorecer a ampliação de consciência sobre como cada pessoa se organiza em relação ao trabalho: como se implica, como se protege, como desenvolve estratégias de enfrentamento, como se perde de si ou como tenta se manter. E, a partir daí, abrir espaço para outros modos de relação, mais conscientes, mais sustentáveis, mais próximos daquilo que, de fato, faz sentido e está relacionado ao seu projeto de vida.
Cuidar da carreira, portanto, não é apenas planejar trajetórias. É, sobretudo, cuidar da forma como se vive o trabalho e da relação que se constrói consigo mesmo nesse percurso.
Renata Arçari
Psicóloga, Administradora e Orientadora de Carreira
CRP 16/12423
@renata.arcari.psi
