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Mais de 20% dos estudantes brasileiros relatam já ter sofrido bullying 

Impactos na saúde mental podem ir além da infância e chegar até a fase adulta 

De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, cerca de 23% dos estudantes brasileiros relataram já ter sofrido bullying. Além disso, dados da Unicef apontam que uma em cada três crianças e adolescentes no mundo já foi vítima desse tipo de violência. Apesar de frequentemente tratado como “fase” ou “brincadeira de criança”, os especialistas alertam: os impactos são graves e podem durar por anos. 

A psicóloga da Hapvida, Débora Pereira, explica que o bullying não afeta a criança ou adolescente apenas no momento em que acontece. Seus efeitos, na verdade, surgem de forma gradual, cumulativa e, o que é pior: muitas vezes, silenciosa.  “A vítima começa a se sentir insegura, com a autoestima mais baixa, com medo. Só que nem sempre ela vai falar isso”, destaca.  

Segundo a especialista, essas experiências repetidas de rejeição e humilhação representadas pelo bullying contribuem para a formação de crenças negativas, impactando diretamente a forma como a pessoa se vê e se relaciona ao longo da vida.  

Já que nem sempre a vítima verbaliza o que está acontecendo, identificar possíveis sinais passa a ser essencial. Pereira destaca que alguns comportamentos podem indicar que algo não vai bem. Mudanças bruscas de hábitos, como isolamento ou irritabilidade, desejo frequente de evitar a escola ou determinados ambientes, queda no rendimento escolar, alterações no sono e no apetite podem dar pistas.  

Outros aspectos aos quais ficar atento são dores ou machucados sem causa aparente, que podem indicar agressões físicas, além de falas negativas sobre si mesmo. Tanto em adolescentes quanto em adultos, segundo Débora Pereira, os reflexos também podem aparecer como dificuldade de socialização, desmotivação e ansiedade. 

Atravessando o tempo 

Os impactos do bullying não ficam restritos à infância. Estudos mostram que as consequências podem se estender até a vida adulta. Nesse contexto, vítimas têm maior probabilidade de desenvolver ansiedade, depressão e dificuldades nos relacionamentos ao longo da vida. Na prática clínica, isso também é percebido. “Muitas vezes, adultos que têm dificuldade de confiar, de se expressar ou de se sentir pertencentes carregam histórias de exclusão e rejeição”, explica a psicóloga. 

Nesse contexto, a atuação da família, da escola e da rede de apoio é fundamental. Débora Pereira reforça que o primeiro passo é a escuta ativa e sem julgamentos.  “A família precisa estar atenta às mudanças de comportamento e manter um espaço seguro, onde a criança ou adolescente se sinta acolhido para falar”, orienta. 

A especialista também destaca que a escola tem papel essencial tanto na prevenção quanto na intervenção, com ações educativas e uma postura ativa diante de qualquer situação de bullying. Já o acompanhamento psicológico atua como suporte para ajudar a vítima a elaborar o que está vivendo e desenvolver estratégias para lidar com essas situações.“Não é ‘coisa de criança’ nem ‘fase’. Quando não é levado a sério, pode gerar impactos emocionais profundos e duradouros”, reitera a especialista. 

Ela reforça ainda que o bullying precisa ser reconhecido e interrompido. Buscar ajuda não é exagero, mas, sim, cuidado. “Mais do que identificar o problema, o desafio está em construir ambientes onde crianças, adolescentes e adultos se sintam seguros para falar, serem quem são e serem respeitados. Porque, muitas vezes, as marcas mais profundas são aquelas que ninguém vê”, conclui.