Alfabetização em meio à pandemia: desafio para pais e filhos

Se antes da pandemia muitos pais já passavam por dificuldades em acompanhar o aprendizado dos filhos, imagina agora. A falta de atividades escolares presenciais causou mudança e, diga-se de passagem, quanta mudança na vida de estudantes de todos os níveis, mas principalmente, na fase infantil. 

Diante desse cenário, os alunos deixaram de frequentar o espaço físico da escola e famílias precisaram se reinventar, procurar soluções que ajudassem no desenvolvimento de seus filhos já que essa fase tão importante do aprendizado poderia ser prejudicada. Aliar o trabalho dos pais e acompanhar os estudos dos filhos tornou-se uma tarefa árdua em muitos lares.

Para Kadja Lima, o grande desafio veio se mostrando com o mundo de informações que surgiram para filhos e, por tabela, para os pais. “Se antes havia o desafio de acompanhar nossos filhos com conteúdos reformulados e com dinâmicas bem diferentes da que aprendemos, com essa nova realidade foi inserido um mundo de plataformas e apps educativos que exigem de nossos filhos domínio que eles não têm, embora eles possuam bem mais habilidades com tecnologias do que antes. Os pais, agora, precisam acompanhar esse processo tecnológico que passou a invadir o mundo da educação como nunca antes. Creio que o maior desafio foi para os pais, pois na tentativa de cumprir sua jornada de trabalho, teria agora de acompanhar bem mais de perto as aulas, na tentativa de manter seus filhos presos na frente de um computador, que muitas vezes não se mostrava tão atraente quanto a sala de aula junto com os amigos. Percebi em minha filha a facilidade de estar dispersa, fazendo outras coisas enquanto a aula rolava e um desejo imenso de fugir da frente daquele computador. Logo, não se tratava apenas de acompanhar a aula, mas de convencê-la de que aquele momento era importante como na sala de aula”, enfatizou kadja Lima.. 

A nova rotina instalada dentro de casa causou angústia e ansiedade em muitas pessoas e isso transformou o processo educativo em um momento de tensão para pais e filhos. “Após essa jornada de aulas remotas, percebo hoje, uma melhora no comportamento da minha filha diante do computador, embora entenda que o professor do outro lado não consegue administrar tantos alunos, cada um no conforto de sua casa, cabendo aos pais administrar esse processo e rezar para que o máximo possível daquela aula seja absorvida. Sim, rezar, não podemos ser ingênuos em querer acreditar que uma criança de 5 e 6 anos diante de um computador possa seguir as regras e dar a devida atenção para uma aula sem que alguém esteja ao seu lado. Portanto, nós que somos pais passamos a ser espectadores das aulas e muitas vezes tivemos que abrir mão de atividades pessoais para que este ciclo educacional não fosse rompido” finaliza Kadja Lima.

Alguns pontos podem colaborar com o processo de alfabetização e, podendo usar o equilíbrio, é possível amenizar os impactos:

– desenvolver a autonomia: essa é uma das principais fases da vida de uma criança e é através desse processo que ela recebe os estímulos para ter controle sobre a escrita. Mas como adquirir esse conhecimento sem estar frequentando o ambiente escolar? Um desafio para os pais assumir essa responsabilidade.

– o convívio com outras crianças: a pandemia impediu essa interação que é um processo importante para a alfabetização. A socialização entre elas facilita o desenvolvimento da coordenação motora necessária para iniciar os primeiros traços. 

– capacidade de focar: toda criança precisa desenvolver essa capacidade, pois sem o foco, ela não terá autocontrole e não saberá lidar com as frustrações.

Quando escola e pais estão alinhados e trabalham juntos todo esse processo inicial acontece de forma mais saudável. Novos hábitos implantados dentro de casa podem ser uma alternativa. 

O cenário pandêmico impactou efetivamente a educação. “As consequências educacionais deste período ainda não podem ser totalmente mensuradas, mas o processo de alfabetização, certamente, é um dos mais comprometidos com o isolamento social pelo qual as escolas ainda estão passando. No entanto, ações entre professores e famílias podem atenuar tais impactos e favorecer a alfabetização dos alunos neste período de excepcionalidade. Para os professores é necessário fazer uso de metodologias e recursos que alcancem de fato uma alfabetização comprometida com a leitura de mundo e a leitura da palavra, tal qual a proposta de Paulo Freire, pois as plataformas tecnológicas e aplicativos sozinhos não conseguem dar conta desse processo sem a mediação de um professor com olhar alfabetizador”, destaca o professor Mestre Wendel Vinícius Santos, docente do curso de pedagogia do Centro Universitário Estácio São Luís. 

É possível  no dia a dia fazer algumas tarefas que possam ajudar em todo esse processo. “No que diz respeito às famílias, a parceria para continuidade desse processo deve se fazer presente em atividades de vida prática que utilizem a leitura, a escrita e também a oralidade, como uma continuidade desse processo que inicia no ambiente escolar mas que é ressignificado em vivências e experiências: ir ao supermercado e pedir que os filhos façam a lista de compras; chegar no supermercado e promover a leitura de marcas e preços; solicitar a leitura de palavras em outdoor no deslocamento de casa; realizar a leitura conjunta de um livro e solicitar que o filho reconte com suas palavras a narrativa experimentada; são possíveis estratégias que aliam o processo alfabetizador com o mundo”, concluiu o professor mestre.

Paulo Freire já nos orientava que para esse processo ser significativo para a criança, mesmo nessa situação de excepcionalidade, é preciso que a leitura seja um ato de amor!
Obs: Em anexo, segue vídeo de apoio da mãe de uma menina de 7 anos falando dos desafios da alfabetização para os pais e filhos em meio a pandemia e o vídeo do professor do Centro Universitário Estácio São Luís.